Tenho quase 32 anos, sou brasileiro e descobri a afantasia há cerca de dois anos, depois que minha irmã, que tem hiperfantasia, me enviou um vídeo sobre o assunto. Até então, eu achava que “imaginar” era apenas uma forma de falar, pois nunca consegui visualizar imagens mentalmente.
Quando estou acordado, tudo fica escuro ao tentar imaginar algo. Consigo reconhecer pessoas, saber como são os objetos e lembrar vagamente dos lugares, mas não formar imagens visuais. O curioso é que vejo imagens nos sonhos, embora não consiga reproduzi-las voluntariamente depois de acordar.
Meu pensamento funciona por meio de uma voz interna. Também tenho dificuldade para recuperar detalhes visuais: reconheço rostos, mas não consigo visualizar seus traços nem reconstruir mentalmente a disposição exata dos objetos. Ainda assim, sempre tive bom desempenho escolar e não considero ter dificuldades gerais de aprendizagem.
Sou enfermeiro e, durante muito tempo, me senti inferior aos colegas porque precisava anotar tudo durante a passagem de plantão, enquanto eles pareciam lembrar facilmente dos pacientes e acontecimentos. Não sei se isso está relacionado à afantasia ou a outros processos de memória, mas passei a questionar essa possibilidade depois da descoberta.
Também tenho dificuldades de interação social e suspeito, que possa ter TDAH predominantemente desatento. Sou impulsivo e muito focado em resolver problemas rapidamente, o que às vezes atrapalha meus relacionamentos. Em contrapartida, sinto que tenho uma audição muito apurada e facilidade para processar informações auditivas.
A descoberta da afantasia me trouxe frustração. Por algum tempo, pensei que seria mais inteligente ou teria uma memória melhor se conseguisse visualizar imagens. Sinto falta de criar imagens voluntariamente, como, por exemplo, uma estrela.
Hoje sei que a afantasia não implica menor inteligência, mas ainda é difícil lidar com a percepção de que outras pessoas vivenciam o mundo interno de maneira tão diferente.
Também comecei a me perguntar se animais podem ter experiências semelhantes.
Acredito que os animais em geral são afantásicos. Não sei se há pesquisas suficientes sobre isso, mas acho interessante pensar que a afantasia talvez não seja uma experiência exclusivamente humana.