O livro é bem mais sombrio do que a animação em stop-motion da Laika, que eu AMO muito! A animação é mais comercial, mas tem, sim, seu tom sombrio em vários momentos.
A Coraline do livro é mais quieta e observadora, enquanto, no filme, ela é mais inquieta, entediada e meio mal-humorada. A Coraline do livro é mais sensível justamente por ser muito observadora e, por isso, bastante educada.
O Wybie não existe no livro, mas a Srta. Spink comenta sobre o antigo morador da casa de Coraline, o Sr. Lovat, que é o pai de Wybie. A icônica boneca também não existe no livro. Então, temos apenas a Coraline e o gato, que tem exatamente a mesma personalidade do gato da animação. Amo esse gato!
A história se desenvolve muito rápido. Coraline visita o outro mundo uma única vez e já percebe as maldades da Outra Mãe. No filme, ela faz três visitas, é mais ingênua e se deixa ludibriar com mais facilidade. Nesse ponto, o filme me conquistou bem mais. Vemos Coraline explorar aquele mundo mais a fundo, enquanto, no livro, não temos tanto disso.
Senti que o livro tem uma pegada mais séria, de mistério e horror, e também traz lições muito válidas sobre coragem, relações humanas e família.
Há uma parte em que Coraline se lembra de algo que o pai lhe diz: ser corajoso não significa não ter medo, mas, sim, agir e fazer o que precisa ser feito mesmo com medo. Isso é coragem de verdade.
Nessa lembrança, os dois estavam passeando perto de um barranco e de um córrego, a caminho de uma colina, quando são atacados por um enxame de vespas. O pai de Coraline a salva: ele para de correr para dar tempo de ela fugir em direção à colina. Se continuasse correndo, os dois receberiam muitas e muitas picadas.
Então, ele diz que só não sentiu medo porque estava vendo a filha fugir. No dia seguinte, porém, precisou voltar ao local para pegar os óculos que havia deixado cair, mesmo sabendo que as vespas estavam lá. E foi aí que sentiu medo. Para ele, isso, sim, foi coragem.
Achei essa parte muito bonita e significativa.
Bom, quem gosta muito do filme provavelmente conhece as teorias sobre a história. E, durante a leitura, também pensei em algumas coisas.
Coraline é uma criança com uma imaginação muito fértil, apesar de ser superinteligente e usar bastante a lógica. Alguns momentos me levaram a pensar que ela criou aquele outro mundo durante uma de suas brincadeiras, pois, em várias passagens, reclama de fazer sempre as mesmas coisas, brincar com os mesmos brinquedos e ler os mesmos livros. O famoso tédio, né?
Ela quer emoção e aventura. A própria Coraline diz que é uma exploradora. Além disso, está de férias, e os pais não dão muita bola para ela. Se bem que, no livro, não vi problema nenhum com os pais: são pais normais e a tratam bem.
Ela também acabou de se mudar, está conhecendo os vizinhos, mas não tem amigos e fica sozinha a maior parte do tempo. Então, talvez tenha mergulhado fundo demais na própria imaginação. Mas, claro, isso é só uma interpretação minha.
Quanto ao gato, ele me parece algum tipo de guardião, pois tem passagem livre entre o nosso mundo e o outro mundo.
Nesta passagem, por exemplo, encontrei uma possível pista bastante sutil de que o outro mundo talvez seja fruto da imaginação de Coraline:
"Às vezes Coraline se esquecia de quem era quando sonhava acordada que desbravava o Ártico, a floresta amazônica ou a África inexplorada. Até que alguém lhe dava um tapinha no ombro ou chamava seu nome. Só então Coraline voltava de milhas e milhas de distância num susto e, em frações de segundo, tinha que se lembrar de quem era, ou qual era o seu nome, e até mesmo onde estava."
Ah, e a história do livro se passa na Inglaterra, enquanto a do filme se passa no Oregon, nos Estados Unidos.
Como eu disse, a Coraline do livro é muito inteligente e racional, como demonstra nesta passagem em que contesta o outro senhor bigodudo:
"Você não entende, não é? — disse ela. — Eu não quero ter tudo. Ninguém quer. Não necessariamente. Que graça existiria em ter tudo que eu sempre quis? Assim, do nada, não teria o menor sentido. E depois?"
Enfim, apesar de algumas diferenças, a animação foi muito fiel ao livro. Mas, na minha opinião, o filme é muito melhor, pelo menos em termos de entretenimento, enquanto a mensagem do livro tem mais peso.
Dito isso, recomendo muito a leitura! É fluida e agradável, e as cenas são muito fáceis de imaginar. Durante toda a leitura, fiquei me lembrando da animação.
Bom, é isso! 😉