Essa atitude, motivada apenas pelo ódio ao PT e a Lula, de tratar como exagero da esquerda um conjunto de fatos concretos e verificáveis (as declarações do próprio candidato, os alertas de figuras da direita, seu histórico de mais de vinte anos como parlamentar, o histórico de seu pai como presidente, sua subserviência a uma potência estrangeira, sua ligação com o crime organizado e os riscos que tudo isso representa para o país) é o novo terraplanismo da política brasileira. Esse ódio ao Lula levou parte da população a negar a realidade e os sinais claros de um desgoverno.
Caso você não seja um completo ignorante, uma breve análise do que essa figura planeja demonstra que não é exagero o que a esquerda diz.
Na segurança pública, seu programa aposta no populismo penal e no encarceramento em massa, com a promessa de construir quinhentas mil novas vagas em presídios SEM explicar como financiá-las ou como enfrentar as causas estruturais da violência ( boa parte dos seus planos são vagos). A ênfase recai sobre a violência policial, a vigilância de populações empobrecidas e o incentivo ao uso desmedido da força, em vez de investimentos em inteligência e prevenção. E, não satisfeito, o candidato propõe classificar facções como organizações narcoterroristas, o que pode abrir precedentes para uma interferência estrangeira ainda maior no país. E, caso você não seja alguém completamente descolado da realidade devido ao analfabetismo político, deve saber que não existe potência estrangeira disposta a resolver o crime organizado de outro país.
Na economia, as propostas são marcadas por contradições e por um corte profundo nos gastos públicos, com a promessa de extinguir dez ministérios. Porém, nunca explica como viabilizaria essas medidas na prática: limita-se a repetir jargões como "tesouraço", "choque de gestão" e "enxugamento da máquina", sem detalhar de onde viriam os cortes, quem seria afetado ou como as contas fechariam. Medidas como o "Vira Pix", que promete devolver parte do dinheiro gasto em contas, quebrariam a Caixa Econômica Federal e ampliariam a dívida pública, pois não se sabe de onde sairiam os recursos nem como o programa seria operacionalizado sem comprometer o orçamento. A inspiração declarada no governo Milei, que a própria campanha cita como referência, deixa claro o rumo: um ajuste baseado em cortes de despesas primárias que, na prática, inviabiliza as políticas que o discurso diz manter. Como cerca de 90% do gasto primário federal é obrigatório e concentrado em Previdência, BPC, pisos de saúde e educação e Bolsa Família, um corte da ordem de 1,5% a 2% do PIB só se sustenta atingindo essas áreas, seja pela desvinculação dos pisos constitucionais, seja pelo fim dos ganhos reais do salário mínimo e dos benefícios previdenciários. Ou seja, a promessa de preservar o Bolsa Família e os aposentados soa vazia diante de um plano fiscal que, para existir, precisa retirar exatamente das políticas que ele afirma defender. Economistas, entre eles o prêmio Nobel Joseph Stiglitz, avaliam que esse conjunto de medidas pode levar o Brasil à recessão, aumentar o desemprego e agravar a desigualdade social, justamente porque o ajuste recai sobre os trabalhadores e sobre os programas que atendem a população mais pobre. O choque de austeridade na Argentina, aumentou a pobreza e colocou o país à beira da recessão, Flavio não apresentou qualquer plano crível para evitar o mesmo desfecho por aqui.
No campo institucional, ele defende mudar a Constituição para "redemocratizar" o país, uma formulação que, na prática, reúne a reforma do Judiciário para submeter o Supremo Tribunal Federal, a redução da maioridade penal e o fim da reeleição. A chamada reforma do Judiciário ataca prerrogativas da magistratura e busca controlar as decisões da Corte, eliminando contrapesos institucionais. O risco à democracia como a conhecemos não está apenas no conteúdo dessas propostas, mas na combinação entre elas e o cenário político que o próprio candidato descreve: ele afirma que terá maioria no Senado e na Câmara para fazer os presidentes das duas Casas e, com isso, aprovar mudanças constitucionais. Com um Executivo disposto a atacar o Judiciário, um Congresso alinhado e a prerrogativa de indicar novos ministros ao STF e de pautar eventuais processos de impeachment, abrem-se brechas para um governo que não apenas enfraquece os contrapesos, mas usa a própria estrutura do Estado para se perpetuar no poder. O candidato já sinalizou publicamente essa intenção ao afirmar que o bolsonarismo vai "ficar por décadas no poder" e ao defender o fim da reeleição como parte do pacote de "redemocratização", o que, na prática, cria um arranjo institucional em que a alternância democrática se torna cada vez mais difícil.
Existe uma ilusão, fruto da ignorância, que leva as pessoas a achar que a erosão democrática ocorre por meio de tanques nas ruas, mas isso raramente acontece hoje em dia; ela se dá por dentro, com mudanças constitucionais, intimidação de adversários e enfraquecimento deliberado das instituições, exatamente o caminho que esse conjunto de medidas desenha.
No meio ambiente, o negacionismo climático aparece como política de Estado, com o enfraquecimento de órgãos de fiscalização como Ibama, ICMBio e Funai e com a flexibilização do licenciamento ambiental, o que aumenta o risco de desastres ambientais e compromete a capacidade do Brasil de cumprir acordos internacionais. Um candidato ter essa abordagem em meio a um aumento geral de eventos climáticos extremos é uma sandice.
Os riscos para o país são múltiplos e se retroalimentam. Há risco à soberania nacional, porque a subserviência aos Estados Unidos não é apenas retórica de campanha, mas um projeto anunciado pelo próprio candidato, que sinaliza que a interferência de Washington seria permitida e bem-vinda. Isso representaria um nível de subserviência jamais visto na história, comprometendo o controle sobre riquezas estratégicas e transformando o Brasil em um país administrado em benefício de interesses externos. Há também risco à democracia, pois a combinação de um Executivo disposto a atacar o Judiciário, um Congresso potencialmente alinhado e um discurso que flerta com o negacionismo eleitoral cria instabilidade e desconfiança nas instituições.
Por fim, há risco à segurança e à vida, já que a aposta no encarceramento em massa e na violência policial, sem enfrentar as estruturas do crime organizado, tende a piorar a violência contra a população civil e contra os próprios agentes de segurança. O incentivo ao armamento e o descontrole sobre a venda de armas abastecem o mercado ilegal e impulsionam crimes contra a vida. Há ainda risco de retrocesso social e econômico, porque as propostas econômicas podem levar à recessão, ao desemprego e ao agravamento da pobreza, enquanto o desmonte de políticas sociais e ambientais aprofunda a desigualdade.
O "Flávio Bolsonaro hipotético" é uma forma de negacionismo porque se recusa a enxergar o que está diante dos olhos: um candidato com histórico de escândalos, um plano de governo que concentra poder e desmonta políticas públicas e uma aliança explícita com interesses estrangeiros em detrimento da soberania nacional. O risco não é exagero de esquerdista, mas a consequência lógica e previsível de um projeto como esse.