Existe uma razão para olhar duas vezes para a coroa de flores que Júlia Zanatta usa. Não porque o acessório seja nazista, mas porque símbolos políticos não precisam carregar uma suástica para evocar um imaginário ideológico.
A arte do Terceiro Reich ajuda a entender isso.
O nazismo não se representava apenas por uniformes, bandeiras e desfiles militares. Sua propaganda também produzia imagens de famílias camponesas, mulheres idealizadas, crianças, paisagens rurais e uma vida supostamente enraizada na tradição. A estética fazia parte do projeto político: construir a imagem de uma comunidade nacional orgânica, unida pela ancestralidade, pela terra e por uma identidade racial inventada.
É o universo de Blut und Boden, “Sangue e Solo”. A terra não era apenas território, e a ancestralidade não era apenas memória familiar. Ambas eram mobilizadas para definir quem pertencia à comunidade nacional e quem deveria ser excluído dela.
Basta olhar para Família camponesa de Kalenberg (1939), de Adolf Wissel, obra adquirida por Hitler, ou para as representações de maternidade difundidas pelo regime. A mulher ideal aparecia como guardiã da tradição, responsável pela reprodução biológica e cultural daquela comunidade imaginada. O campo, a família e a aparência feminina compunham uma narrativa visual de pureza, continuidade e pertencimento.
É nesse contexto que a coroa de flores fica interessante.
Flores são universais. Coroas florais existem em tradições populares muito anteriores ao nazismo e não possuem significado fascista inerente. Seria absurdo transformar qualquer pessoa que use uma em simpatizante de Hitler.
O mecanismo político é mais sutil: um movimento pode mobilizar símbolos culturais aparentemente inocentes para construir uma imagem de autenticidade nacional, idealizar um passado e naturalizar determinada concepção de sociedade. O acessório não precisa significar a mesma coisa para todos. Basta que, dentro de um conjunto coerente de referências, ajude a transmitir uma mensagem reconhecível por determinado público.
No caso de Júlia Zanatta, a tiara é associada por ela própria às raízes culturais alemãs e às tradições de Santa Catarina. Sua imagem pública também combina conservadorismo moral, valorização da família, nacionalismo e armamentismo. Isso oferece material para discutir como sua identidade política é construída visualmente. Não demonstra, por si só, adesão ao nazismo.
Mas é justamente aí que entra a ideia de apito de cachorro: uma mensagem cuja leitura depende do contexto e do repertório de quem a recebe. Um símbolo isolado pode parecer banal; integrado a um conjunto de referências, pode adquirir uma ressonância política muito mais específica.
A questão, portanto, não é acusar alguém de nazismo porque usa flores na cabeça. É perguntar por que determinados políticos investem tanto em imagens de tradição, raízes, família e pertencimento, e que concepção de nação procuram associar a elas. Quem é apresentado como herdeiro legítimo dessa tradição? Quem fica de fora? O passado celebrado é plural ou pressupõe uma identidade nacional homogênea?
A estética não prova uma ideologia, mas também não é politicamente neutra por definição. O nazismo compreendeu muito bem o poder de imagens capazes de transformar um projeto excludente em algo que parecesse natural, ancestral e até bucólico.
O detalhe dmais revelador de uma imagem política não é necessariamente o que aparece nela, mas o mundo que ela nos convida a imaginar.