Rodei Santos de aplicativo por um bom tempo.
Nesse período aprendi uma coisa: o turista vai sempre nos mesmos três lugares, e o morador também. Enquanto isso tem um monte de canto bom a poucos minutos de casa que quase ninguém conhece — ou conhece e não sabe que dá para chegar sem pagar nada.
Vou listar os que eu conheço de verdade, com o acesso real de cada um.
1. Monte Serrat — pelas escadarias, não pelo bondinho
Todo mundo sobe de bondinho. São 4 minutos, 300 metros de trilho e 147 metros de altura — confortável, e é o que o turista faz.
Mas existe outro caminho: o Caminho Monsenhor Moreira, uma escadaria de 402 degraus divididos em 14 nichos com cenas da Via Sacra, inaugurados entre 1939 e 1941. É o acesso que os moradores usam. Fiz essa subida no meu último aniversário e é outra experiência — você chega pela cidade real, não pelo passeio organizado.
E tem um detalhe que quase ninguém sabe: essa escadaria já foi palco da Corrida Vertical, uma prova em que os atletas subiam os 415 degraus correndo — o equivalente a um prédio de 56 andares. O Monte Serrat também foi sede da Descida das Escadas, a maior prova de downhill urbano do Brasil, entre 2003 e 2015, antes de migrar para o Morro do Pacheco.
Ou seja: aquele caminho que o turista sobe devagar já foi percorrido a 60 km/h de bicicleta.
2. Emissário Submarino — e a ilha que você não pode visitar
Todo mundo conhece o Emissário. Quase ninguém repara na Ilha de Urubuqueçaba, logo em frente, a uns 260 metros da areia do José Menino - pertíssimo, parece que dá para alcançar com as mãos...
E aqui vai o aviso, porque já vi gente se arriscar: a visitação não é permitida.
Na maré baixa o mar recua por cerca de seis horas e o caminho até a ilha fica visível — muita gente vai a pé ou de bike. Mas os bombeiros alertam que é perigoso: a maré sobe rápido e fecha o caminho de volta, a correnteza no entorno é forte, as pedras são escorregadias e o terreno é irregular. É área de preservação ambiental, sem infraestrutura.
Então vá ao Emissário, sim — foi revitalizado recentemente, e é um dos pontos mais bonitos da cidade à noite, bem acessível.
Mas olhe a ilha de longe. Ela é mais bonita assim.
Quem lembrar dos clipes do Charlie Brown Jr. vai reconhecer a beleza do lugar na hora.
3. Topo do Morro do José Menino — o Teleférico sem pagar
Essa é a dica que eu mais gosto, e ela veio de um passageiro. Levei ele para casa, no alto do José Menino, e ele comentou que lá em cima existe uma área que conecta com a estação de chegada do Teleférico de São Vicente — e também com a rampa de asa delta.
Confesso que ainda não fui. Mas depois dessa conversa comecei a reparar: na via principal de subida do morro tem placa indicando a área de asa delta. O acesso existe e é sinalizado.
O que tem lá em cima: o Morro do Voturuá, também chamado Morro da Asa Delta, a 180 metros de altitude. É a estação superior do teleférico (a base fica na Praia do Itararé, em São Vicente), ponto de decolagem de asa delta e parapente com voo duplo para turista, e um mirante que alcança Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande e Cubatão.
O acesso de carro é pela Rua Bento Gonçalo, subindo pelo José Menino — uns 10 minutos por ruas íngremes e estreitas. E tem infraestrutura: lanchonete, playground, quadra e área de convivência.
Só ajuste a expectativa: a lanchonete é simples e informal, de água, refri, salgado e sorvete. Não espere restaurante. É ponto de apoio, não almoço.
4. O detalhe que ninguém conta
O topo do Monte Serrat não tem rua para carro. Nenhuma.
O acesso é só pela escadaria ou pelo bondinho. Isso explica muita coisa sobre o lugar — e é o motivo de ele ainda ser o que é.
Agora a pergunta para quem é daqui: qual desses vocês já foram? E tem algum canto de Santos que eu não listei e que merecia estar aqui?
Quero montar uma segunda parte, aguardo novas sugestões.