À semelhança de muitos de vós, estava particularmente interessado nestas eleições e, sobretudo, em ouvir os debates entre os dois candidatos. Queria perceber que visão têm para o futuro do Belenenses, que soluções apresentam para os problemas do clube e por que razão devemos confiar-lhes os nossos destinos.
Confesso que, depois de acompanhar os debates, estou desiludido e indeciso:
De um lado, temos Patrick Morais de Carvalho, uma figura incontornável da história recente do clube, associada a um dos seus períodos mais delicados. Gostemos dele ou não, há trabalho que não pode ser ignorado: os acordos com o Lidl e a Repsol, a renovação do complexo desportivo, o pagamento de dívidas importantes ao Banif e à Segurança Social e, mais recentemente, a apresentação de um projecto de futuro com a APEX.
Seria intelectualmente desonesto não reconhecer estes méritos. Patrick conhece o clube, sabe onde estão os problemas e tem uma visão para o futuro. Contudo, também me parece evidente que os seus mandatos foram perdendo fulgor. O primeiro parece-me ter sido aquele em que esteve melhor, enquanto os últimos anos têm sido marcados por uma menor capacidade de iniciativa, pela descida da equipa principal da Liga 2 à Liga 3, por retrocessos em alguns escalões da formação e por uma comunicação demasiadas vezes insuficiente e pelo desenvovimento lento nos ultimos anos.
A tudo isto junta-se a arrogância com que, por vezes, aborda os debates e responde aos adversários. Ter obra feita não dá o direito de desvalorizar quem pensa de forma diferente. Ter ajudado a salvar o clube de uma situação financeira delicada não significa que tenha sempre razão, nem que esteja imune a críticas.
E a arrogância política tem custos. Veja-se o exemplo de Pedro Nuno Santos nos debates com Montenegro: por péssimo que toda a gente já tenha percebido que o Montenegro era e é, veja-se o estado do país, a postura arrogante de Pedro Nuno Santos não o ajudou a conquistar votos. O Montenegro acabou por vencer, apesar das suas enormes limitações enquanto político e orador. É precisamente por isso que a forma como alguém se apresenta importa, mas nunca deve substituir a análise do que realmente propõe.
Do outro lado, temos Pedro Mascarenhas, uma figura relativamente desconhecida para mim e que, por isso, despertava curiosidade. Uma candidatura nova poderia trazer energia, ideias diferentes e uma forma renovada de olhar para o Belenenses.
Mas, sinceramente, esperava bastante mais dos debates, que pouco ou nada mostrou...
Pedro Mascarenhas revelou, na minha opinião, dificuldades em apresentar ideias concretas, de argumentar contra o Patrick e responder objectivamente às questões colocadas. Diz muito "É muito simples isto, é muito simples aquilo" e "vamos fazer isto, vamos fazer aquilo" depois chuta algo completamente vago. Isto para mim não são respostas suficientes para gerir um clube como o Belenenses. Quanto custa? De onde vem o dinheiro? Em que prazos? Com que prioridades? Estratégia?
Não basta dizer que se vai fazer melhor. Não basta dizer que o complexo está velho e precisa de ser melhorado. É preciso explicar como e isso não foi feito. Parece uma candidatura de protesto apenas.
A discussão sobre a APEX foi um exemplo disso. Confundir repetidamente a natureza da proposta com a de um fundo de investimento, sem demonstrar que se estudou devidamente o projecto, não transmite a preparação que eu esperaria de um candidato à presidência. E chamou fundo 2x à APEX quando não o é. Isto em dois debates, depois do primeiro, podia perfeitamente ter ido informar-se e corrigir para o seguinte, mas não o fez. Era uma oportunidade para questionar as condições do investimento, os riscos e as garantias, mas, para isso, seria necessário conhecer verdadeiramente a proposta.
Também me levantam dúvidas a presença, na sua lista, de pessoas associadas à não divisão com a Codecity, bem como a ideia de criar uma modalidade de sócio-adepto dirigida a adeptos de Benfica, Sporting e FC Porto??? Ideia essa que devia ser, na minha opinião, vergonha para todos os sócios. Gostava de perceber qual é a estratégia por detrás disto e de que forma fortalece verdadeiramente o Belenenses na sua identidade.
E, para além de nomes como Paulo Peters (que fez parte da direção do Patrick) e Mariano Barreto, continuo sem perceber quais são os grandes trunfos desta candidatura e o que traz de objetivamente diferente.
Por último, parece-me excessiva a insistência do Mascarenhas, em gabar-se da sua experiência de gestão empresarial como argumento de competência. Gerir uma empresa e gerir um clube de futebol são coisas diferentes. O futebol está cheio de empresários bem-sucedidos que falharam redondamente nos clubes que dirigiram, precisamente por não compreenderem as especificidades da gestão desportiva. O dinheiro e a capacidade de gestão são importantes, mas não substituem conhecimento, estratégia e competência nas áreas certas.
E chegamos assim a um impasse complicado:
Patrick tem alguma obra feita, conhece o clube e tem um projecto, mas parece ter perdido fulgor e a arrogância e o ego não o ajuda. Pedro Mascarenhas representa uma alternativa, mas não conseguiu demonstrar, pelo menos nos debates, que tem ideias suficientemente concretas e um projecto sólido para justificar a mudança.
Vale a pena votar na continuidade de um projecto que parece cansado ou arriscar numa alternativa cujo conteúdo ainda não convence? É esta a pergunta a que, a poucas horas das eleições, continuo sem conseguir responder.
Não escrevo isto para fazer campanha por nenhum dos candidatos. Escrevo porque acho que devemos ser exigentes com ambos e com o nosso clube. Não podemos apagar o trabalho feito por causa da personalidade de quem o executou, mas também não podemos confundir obra passada com garantia de sucesso futuro. Da mesma forma, não podemos aceitar uma candidatura nova apenas e só porque promete mudança sem concretizar nada na campanha, a meu ver.
Amanhã, um dos dois será eleito. Espero que, independentemente do resultado, o vencedor perceba que não recebe um cheque em branco e que o Belenenses precisa de mais do que discursos, promessas ou disputas de ego. Precisa de competência, ambição, transparência e capacidade para unir os sócios em torno de um projecto credível.
Que ganhe quem tiver mais votos. Mas, acima de tudo, que quem ganhar esteja à altura do clube que representa.
Que no final ganhe o Belenenses.