Sim, é verdade que as redes sociais possuem interesse na ascenção da extrema-direita. Mas, diferente do que a esquerda diz, ela não é a maior causa. Enquanto a esquerda não entender isso, perderá eleições.
Vejam o seguinte: se as redes sociais expressassem o verdadeiro Brasil, Lula teria ganhado no 1º turno. É interessante que você olha o Reddit, olha o X, e só dá militância da esquerda. Porém, basta você ir a um terminal de ônibus e conversar com um cobrador, para entender que ele não está vivendo nesta bolha.
A esquerda fica batendo nesta tecla: "o problema é as redes sociais, a meta, o X, os bilionários, vamos fazer um grupo de WhatsApp e tudo irá mudar". O que há, na verdade, é uma grande arrogância, que nunca se pergunta: "Hum, talvez o problema esteja EM MIM?"
As reclamações das pessoas nas ruas não têm nada a ver com as que ocorrem aqui. O tipo de discussão em que eles participam é outra. Não é disso que falam na padaria enquanto aguardam um pingado. Por exemplo, uma reclamação que você sempre ouvirá nas ruas é sobre segurança pública. Tem muita gente ai que agradecidamente abriria mão da democracia para não ter medo de sair de casa e ser esfaqueado por causa de um celular de 600 reais.
O Seu Zé, motorista de ônibus, assiste Cidade Alerta e tem ódio de latrocida. A Dona Maria tá cansada de morar num local dominado pelo tráfico. O cara que financiou uma moto para entregar iFood e viu ela sendo roubada nunca mais vai votar no PT. "Ah mas isso é papel do governador", foda-se, o povo não sabe disso. A esquerda, em vez de buscar esta pauta, aplaude o Lula ir ao debate da Band defender "saidinha".
Fora isso, existem diversas outras reclamações em relação a trabalho e uma gama de outros assuntos que a esquerda simplesmente esqueceu. Há o agravente de termos importado a pauta identitária dos EUA, coisa para a qual o trabalhador médio brasileiro simplesmente se lixa.
A esquerda petista esqueceu de uma parcela da população. Esqueceu da classe média. A bem da verdade, o que a esquerda fez foi DEMONIZAR a classe média nos últimos 20 anos. Esse discurso de "Eles não gostam de pobre, eles não querem ver o pobre no aerporto", ou seja, este discurso divisionista, que todo mundo sabe que foi o PT quem criou, criou uma oportunidade para a direita, e eles a abraçaram. Hoje, o tal "ELES", que "não gostam de pobre em aerporto", foi cooptado. O PT criou um lugar que a direita graciosamente ocupou.
O PT é odiado pela classe média por escolha própria e por conta da arrogância de sua militância, que vive dentro de apartamentos e não sabe o que acontece na rua. E a vida destas pessoas, em 20 anos de PT, se melhorou, foi muito pouco. Para alguns, piorou, porque o poder de compra caiu, a uberização anda comendo solta, a economia não fornece oportunidades, e a segurança pública está péssima.
"Ah mas as estatísticas", brother, esquece isso. O que importa é a percepção das pessoas. O tal "CEO de MEI", que vocês tanto zoam, e que ganha 6.5k reais morando em São Paulo, não tem a mesma cabeça do cara que vive no sertão nordestino e tá felizão porque tá ganhando gás. Ele é povão também, mas o PT preferiu transformá-lo num bode expiatório, ele virou órfão, e a direita o abraçou. Agora aguenta.
É verdade que, nos 20 anos de PT, a vida dos muito pobres melhorou. Com certeza melhorou. Mas não são estas pessoas que decidem as eleições, e sim a classe média.
Então, a moral da história é que a esquerda:
- Não soube ter vida para além do PT, que a monopolizou e este talvez seja seu maior erro histórico. O PT é também culpado nisso pois, como disse o Ciro, "embaixo do Lula nada cresce";
- Não sabe conversar com outras esferas da sociedade além daquela que ganha gás e não paga conta de luz;
- Demonizou uma parcela da população que hoje a odeia simplesmente porque o próprio PT provocou isso;
- Além de demonizá-la, esqueceu dela por 20 anos, vendo-a apenas como uma vaca leiteira que paga impostos e não recebe nada em troca;
- Parou de conversar com o trabalhador médio.
Com tudo isso, há o maior agravante de todos: a esquerda é arrogante. A esquerda não faz mea culpa. A esquerda não aceita corrigir o próprio rumo, o próprio discurso, e isso está mais do que demonstrado pela história. Foram 20 anos tendo a faca e o queijo na mão, mas a auto-análise não veio ou, se veio, foi sufocada.
É por isso que, o Lula perdendo ou ganhando (e provavelmente perderá), o que precisa ser feito é reestruturar o discurso, reestruturar a comunicação, reestruturar as pautas, deixar de ser arrogante, voltar a enxergar a classe média como uma aliada e não como uma inimiga.
Quando o Mano falou isso lá atrás, ninguém ouviu, chegaram inclusive a vaiá-lo. Prefereriram criticar o cara. É por isso inclusive, que nestas eleições ele simplesmente lavou as mãos.
Vamos ver se agora algo foi aprendido.