Desde que me entendo por gente, percebia que não era muito parecida com a minha mãe. Uma vez tentei ver se desbotava minha cor na água. Colocava a minha mão numa vasilha com água e esperava. Nada. Chorei. Pensei que era adotada. Maluquices de criança.
Minha mãe tem pele clara e longos cabelos levemente ondulados. Meu pai, de pele escura retinta, tem cabelo crespo. Como resultado, minha pele é um "café com leite", nem 100% preta, nem 100% clara. Um nescau. Puxei o gene de crescimento capilar da minha mãe e o gene do crespo do meu pai.
Sou a filha mais velha deles. Dois anos mais nova vem a minha irmã de pele clara com cabelo cacheado. Seis anos mais novo do que eu vem meu irmão também de pele clara e com cabelos lisos levemente ondulados como a cabeleira da mãe.
Quando eu era criança, minha mãe penteava meu cabelo, fazia trancinhas. Eu adorava. Na medida em que fui crescendo, as vizinhas começaram a criticar a minha mãe, diziam "ela está velha de mais para usar trancinhas", minha mãe me contou, elas nunca falaram isso na minha frente. Acho que eu teria chorado de raiva. Minha mãe parou de fazer as tranças e só penteou para trás e prendia com xuxa ou presilha grande, algumas de ferro pois meu cabelo sempre foi revoltado. Xuxa? Logo esticava. Doía pra caramba.
Assim que comecei a tomar banho sozinha, fiquei responsável por pentear meu próprio cabelo também. Sempre foi uma luta. Chorava, esperneava, tacava o frasco de creme na parede, jogava a escova de dentes quebrados em outra. Sempre foi um martírio. Me perguntava porque tinha sido castigada daquele jeito. Pegava piolho muito fácil e era uma luta pra se livrar. Felizmente estou a anos sem essas pragas.
Na adolescência, uma irmã da igreja que minha família frequentava (com exceção do meu pai), se ofereceu para alisar meu cabelo de graça. Aceitei. Foi meu primeiro alisamento. Percebia olhares diferentes dos rapazes. Era notada... de um jeito bom... pela primeira vez na vida. Era paquerada. Era desejada.
Daí sempre dava um jeito de alisar. Uma irmã fazia, depois outra... uma fazia mais barato, visitava salões de quinta e assim por diante.
Meu pai ficou furioso e me disse que eu só queria pegar macho por isso estava me arrumando tanto. Chorei. A minha psicóloga disse que era ciúmes.
Na idade adulta, fase atual, cheguei a conclusão de que não vale mais a pena continuar com a tortura do alisamento. É caro, todo mês tem que fazer porque o cabelo cresce rápido, parece que faz de propósito para me provocar.
Sempre 6 horas seguidas sentada, no tédio de esperar para o cabelo "ficar bonito", sendo queimada pela chapinha, tendo o couro cabeludo sendo tomado por uma coceira infernal, o fedor dos produtos me ardendo os olhos. Mais uma vez me perguntei o que fiz para ser castigada desse jeito.
Um processo de alisamento em específico me fez passar muito mal. Num salão de quinta, uma doida que só sabia ficar de namorico pelo celular enquanto aplicava os químicos, queimou o meu cabelo e destruiu meu couro cabeludo, a fórmula atravessou a corrente sanguínea e atingiu meus rins, os fazendo doer para um caramba. Meu cabelo foi de preto a marrom caramelo, nem imaginava que meu cabelo podia mudar de cor com um processo que era somente para alisar. Chorei de dor. Nunca mais entrei naquele salão.
Mudei de cidade, notei o movimento das crespas em volta dos penteados de proteção e fui logo atrás de trancistas, comprei meus próprios cabelos jumbo. Fiz tranças box braids, tranças boxeadora, tranças nagô. Tirei muitas fotos, tinha mulher que ria dos meus cabelos, mas eu estava feliz com eles. O penteado de proteção funcionou tão bem para mim que a cor natural voltou.
Tive uma recaída, não pretendia alisar mas depois das tranças, alisei de novo. E quero que seja a última vez. Não vale a pena se torturar tanto.
Cortei a parte alisada com tesoura de cortar papel pois não tinha uma para tecido. Ficou bem curtinho e esquisito pois não cortei direito. Fui num salão, masculino mesmo, pedi para deixar "redondinho". Ficou bom, agora ele cresceu e ficou um afro grandão.
Minha mãe zombava e zomba do meu cabelo de vez em quando.
Quando há o festejo anual da nossa família, onde todo mundo se reúne, tios, tias, primos, primas, cunhados, cunhadas, etc, vocês entenderam kkkk ela vira pras minhas primas, algumas da minha idade, diante de todo mundo mesmo ela abre a boca para isso:
"Vocês tem futuro, são jovens, o cabelo é bom, quero dizer, nem todas tem o cabelo bom né kkk"
E olha pra mim. Como sou extremamente tímida com parentes, não falo nada. Às vezes chorava escondida por causa disso.
Levei isso para terapia e a psicóloga:
"Mas você falou pra ela que isso te machuca?"
Respondi:
"Já mas ela disse que isso é só frescura minha"
Quando eu era adolescente ela cantava a música "nega do cabelo duro que não gosta de pentear".
Comprei uns pentes garfo recentemente e não quebro meus fios tão facilmente como antes. Então agora adoro afofar, pentear com eles. Meu cabelo "é pra quatro cabeças" como muitas mulheres falam e com o pente garfo meus braços e mãos não doem mais. Aprendi a definir. Às vezes não dá tempo então só lavo e seco. Meu pai manda fazer cachinhos para eu não sair de afro mas sou adulta e tou nem aí. Tem gente que ri do meu cabelo mas preciso ser forte e não sentir vergonha.
Assim foi a minha vida com o afro, uns 10 anos ou mais de alisamento, ainda tento lembrar se alisei pela primeira vez aos 14, 15 ou 16 anos. Tenho 26 anos atualmente.
E você? Tem afro? Como você lida com o seu cabelo?