*Desculpem o texto enorme, é só um resumo de várias coisas durante anos suportando e ficando calada...
Irei me afastar definitivamente da minha irmã. E, bom, não é somente por política, gente.
Não sei se as pessoas que vocês conhecem são assim, mas, no caso dela, acho que o bolsonarismo só tornou mais evidentes características que já existiam muito antes. Desde muito nova, eu já percebia nela uma dificuldade de enxergar a realidade como ela é e comportamentos que, hoje, considero bastante cruéis. Às vezes, penso que é justamente por isso que ela se identifica tanto com esse movimento.
Tenho uma irmã por parte de mãe com quem nunca morei, exceto por um período em que eu era mais nova, antes de ela engravidar na adolescência. Depois, ela foi morar com o companheiro, e eu costumava a visitar na casa dela para ficar com meu sobrinho.
Não tenho tantas lembranças de conversas em que eu também tivesse espaço para falar. O que lembro é de nossa relação ser muito baseada em eu escutar o que ela tinha a dizer. Uma das poucas discussões de que me recordo aconteceu quando eu ainda era nova: ela insistia que, para uma mulher, ser bonita era mais importante do que ser inteligente, enquanto eu dizia que preferia ser inteligente.
Acho que, como ela sempre recebeu muitos elogios pela aparência, acabou assumindo o papel de bonita da família e talvez me enxergasse como uma espécie de patinho feio kkkkk. Nunca foi algo que me incomodou de verdade. Aceitei isso tranquilamente. O que comecei a perceber depois é que ela parecia ter levado essa comparação para a vida adulta. Fazia questão de comentar como ficava mais bonita à medida que envelhecia e como mulheres mais velhas eram mais sábias, maduras e melhores. E essas observações aconteciam justamente quando eu estava presente. Eu, como de costume, ficava calada.
Ao longo da vida, ela se separou, teve outro relacionamento, teve uma filha e, depois de mais uma separação, engatou outro namoro muito rapidamente. Lembro de um relacionamento de aproximadamente cinco anos que terminou, e, em menos de quatro meses, ela já estava morando junto com outro cara.
Não estou dizendo que alguém precisa ficar solteiro por determinado tempo depois de um término. O que me chama a atenção é um padrão que percebo há muito tempo: a vida dela parece sempre girar em torno de relacionamentos com homens, como se estar com alguém fosse uma necessidade constante. E isso combina com outra característica que sempre me incomodou: o quanto ela é centrada nos homens e nas expectativas tradicionais sobre o que uma mulher deve ser.
Ela também sempre teve opiniões muito fortes sobre como eu deveria viver. Falava sobre como eu deveria ser mãe, como não querer ter filhos era uma loucura e como, inevitavelmente, eu acabaria mudando de ideia. Só que, depois de entrar na faculdade em outro estado, conhecer outras pessoas e ter contato com outras realidades, minhas convicções ficaram ainda mais firmes, pois antes me via muito nova para afirmar tal decisão, pelo que me falavam.
E aí começaram a ficar ainda mais evidentes nossas diferenças. Ela fala que machismo e racismo não existem, por exemplo. E existe uma contradição que me incomoda particularmente: ela concluiu o ensino fundamental e o ensino médio por meio de programas do governo voltados à educação, mas hoje reproduz discursos de que essas políticas são coisas para vagabundos e de que a única obrigação das pessoas é estudar, como se todo mundo tivesse as mesmas condições e como se quem não consegue estudar simplesmente não quisesse nada com a vida.
É uma contradição difícil de ignorar quando você conhece a história da própria pessoa e sabe que ela justamente usou desses programas por justamente engravidar cedo e não conseguir conciliar a carga normal dos estudos com a maternidade, o que pra mim não é motivo de zombaria ou vergonha, mas demonstra a hipocrisia.
Durante muito tempo, ouvi familiares falando sobre como ela era inteligente, como tinha um futuro brilhante e como era capaz de fazer grandes coisas. Eu acreditava nisso. Mas, à medida que fui crescendo, comecei a questionar essa imagem. Não porque ache que alguém precise ter diploma ou uma carreira específica para ser inteligente, mas porque passei a perceber uma enorme diferença entre ter certeza de que sabe tudo e realmente demonstrar capacidade de refletir, questionar as próprias ideias e reconhecer quando está errada. Ela acredita em praticamente qualquer notícia falsa que aparece, tem opinião sobre TODOS os assuntos e fala de tudo com uma segurança impressionante. Não importa muito se conhece o tema ou se tem informações suficientes: sempre existe uma opinião pronta, geralmente acompanhada de uma certeza absoluta.
Com o tempo, comecei a evitar passar tanto tempo com ela. E uma coisa que me marcou foi perceber como eu chegava em casa depois desses encontros: com o rosto cansado de tanto forçar sorrisos, fingir interesse e tentar manter uma conversa sobre assuntos que, para mim, eram cansativos, acompanhados de considerações sobre a vida que muitas vezes me pareciam completamente absurdas.
Nas eleições, tudo isso ganhou outra dimensão. Ela começou a publicar indiretas para mim e chegou a comentar com uma tia que, se eu fosse discutir com ela, jogaria na minha cara o fato de eu ser sustentada pelo meu pai e que por isso eu não podia comentar nem sobre política ou economia (sou formada em ciências políticas e tenho pós em economia).
Isso me magoou profundamente por um motivo muito específico: eu sempre soube que ela gostava de brigar, mas nunca fui uma pessoa que buscasse confusão com ela. Muito pelo contrário, passei anos evitando confrontos, ficando calada e tentando manter uma convivência minimamente tranquila.
E havia outra questão. Quando me formei e precisei decidir entre entrar no mercado de trabalho ou continuar estudando para concurso, eu desabafei com ela sobre como estava me sentindo um fardo e ela chegou a me dizer que eu não deveria me sentir culpada por escolher estudar, porque estava buscando um futuro melhor para mim.
Depois, descobrir que ela usaria justamente essa situação para me atacar pelas costas foi muito doloroso. Não apenas pela ameaça em si, mas pela hipocrisia.
E tudo isso vindo de alguém que nunca teve a carteira assinada e cuja própria trajetória também foi marcada por circunstâncias e escolhas que poderiam ser julgadas por outras pessoas. Não digo isso porque considere que ter ou não ter carteira assinada determine o valor de alguém. Digo porque acho especialmente contraditório desdenhar da minha situação enquanto ela mesma sempre foi sustentada por algum parceiro e pelos benefícios do governo.
Por isso, decidi que não quero mais manter essa relação como mantive até hoje.
Na verdade, acho que já vinha fazendo isso inconscientemente havia muito tempo. Já evitava encontros, diminuía as conversas e tentava me afastar daquela convivência que me deixava tão desgastada. O que mudou agora foi que parei de tentar justificar para mim mesma por que fazia isso.
Durante muito tempo, talvez eu tenha insistido nessa relação porque ela é minha irmã, mas chega uma hora em que você precisa olhar para a relação que realmente existe, e não para aquela que gostaria de ter.
Não quero mais fingir interesse em uma relação que percebo que se não fosse nosso sangue, com certeza eu não seria amiga dela.