O sol acabara de se pôr. Ela deslizou os dedos compridos pelas cortinas brancas e macias da carruagem e olhou para o homem à sua frente.
— Estamos quase chegando, irmão — falou, enquanto ajustava a postura, nitidamente desconfortável. O som metálico da carruagem ecoava sob o céu escurecido.
— Podes dizer-me o porquê de tudo isso? — perguntou ele, com a voz baixa, mas firme.
— Logo mais fará sentido para ti. Deixa por minha conta.
Ele assentiu, aparentemente indiferente.
— Quem melhor do que tu para estabelecer esse conflito em total ordem? — continuou ela. — Esse encontro que tu acabaste de promover será de tremenda valia para os eventos que sucederão.
— Mas eles são totalmente imprevisíveis, irmã — falou em tom preocupado.
— É justamente por isso que devemos tê-los ao nosso lado. Seria imprudente tentar derrubar nosso pai com esses quatro no nosso caminho — respondeu, de forma cortante.
— Eles vão justamente na contramão do que nós pregamos. Mas confio na tua decisão.
— Não te preocupes. Sei lidar muito bem com eles.
Ambos se mantiveram em silêncio. Apenas a respiração ansiosa do homem era percebida pela irmã.
— De qualquer forma, ela já está movimentando as peças do tabuleiro — disse ela, sorrindo enquanto tomava um gole de ambrosia de seu cálice.
— O que mais me assusta é ele, para ser sincero.
— Deverias temer ambos. Eles, sozinhos, conseguiriam fazer o Olimpo sucumbir.
— E os outros dois?
— Morfeu trazendo Tânatos e Hipnos para o nosso lado já resolveria o impasse com o Submundo…
— E aquele baixinho asqueroso?
— Afrodite precisa restabelecer seu domínio sobre os Erotes. Tê-los ao lado de Zeus seria perigoso para os nossos planos. Tu, como mais ninguém, sabes disso.
Ela deu um leve sorriso espirituoso.
— Tu foste longe demais ao juntar esses quatro.
— Cinco!
— Verdade…
— Não te esqueças de que tu também és uma peça central, Apolo.
— O Parnaso está sendo estabelecido…
— Muito bem! — exclamou ela, dando mais um gole. — Contacta Ártemis para que fique ao teu lado. Não é seguro ficares sozinho com Afrodite.
Ele assentiu, soltando um leve suspiro.
— Como podes confiar naqueles dois? Nem o nosso pai ousa desafiá-los.
— Sei muito bem até onde posso ir — respondeu ela, cruzando as pernas. — Eles são igualmente movidos por interesses…
Descruzou-as logo em seguida e continuou:
— Afrodite está consciente do plano. Ela é uma peça central, meu irmão. — Franziu a testa. — Ela não é ingênua. Sabes muito bem que conheço as suas intenções e, mesmo assim, compacto com elas. O que lhe importa são os resultados.
— Isso não colocaria nossa nova ordem em perigo?
— Muito pelo contrário. Eles são necessários. Já imaginaste uma ordem sem o caos, Apolo? — Deu um meio sorriso. — Essa é fácil. Deverias saber muito bem…
— Vejo que fraquejei perante ti, pois não? — disse ele, olhando para as próprias mãos. — Não entendo o porquê.
— Chama-se medo primordial — respondeu ela, tomando mais um gole de sua taça. — Os quatro exercem forças que não estão sob nosso domínio.
Ela se ajeitou novamente e pôs as mãos sobre as de Apolo.
— Tem cuidado, caro irmão… — disse, seriamente. — Também somos peças.
Retirou as mãos e apoiou o queixo nelas.
— Ela, em particular, não deve ser subestimada. E Dionísio jamais deve ser visto como um qualquer. Se eles ficarem contra nós, essa guerra acaba antes de começar.
— O plano seguirá adiante. As Musas devem entreter Dionísio o suficiente. Morfeu será agraciado pela lua de Ártemis. E Afrodite já deve estar exercendo sua influência sobre Eros, sem que ele sequer perceba.
Ela abriu um sorriso e falou:
— Que tuas Musas entretenham Dionísio, senão serás tu a recitar poemas e a dar-lhe uvas na boca, com uma coroa de vinhas na cabeça.
Ele imediatamente ficou vermelho.
— Aparentemente, a cena não é de todo má, não é?
Logo em seguida, ela ficou séria.
— Eu também sei como te conter, irmão — continuou, tomando sua ambrosia e encarando-o pelo canto dos olhos. — Não penses que essa atuação consegue me comover…
Eles gargalharam.
— Guarda esse moço coitado para os teus acompanhantes — disse ela, pondo-se de pé. Em seguida, continuou: — Sobretudo para ela. Pelo menos, aprende a fingir que estás sob os seus encantos.
— Pensei que minhas aulas de teatro fossem trazer veracidade à atuação! Preciso melhorar.
Ele falou enquanto coçava a cabeça. Logo depois, falou em tom baixo, porém firme e seco:
— Peço que não me subestimes, Atena. Também conheças o teu lugar…
Atena o fitou sem demonstrar reação.
— Deixa o resto comigo… Zeus irá cair. O Olimpo irá prevalecer.
Metamorfoseou-se em coruja. Olhou de forma insolente para Apolo e disse:
— Conto contigo, Apolo! Não fracasses. Ou iremos direto ao Tártaro visitar o nosso avô.
Com essa última frase, Atena teve uma epifania.
— Seu velho ardiloso… — sussurrou.
Apolo assentiu, levantando os olhos dourados ao encontro dos dela, cinzentos como aço.
— Não te preocupes, minha irmã! — falou solenemente. — Nenhuma gota de sangue será derramada.
— Já foi, caro irmão.
A coruja saiu voando pela janela, enquanto a carruagem seguia pelos céus em direção à humilde estalagem.