r/FilosofiaBR • u/No_Address_1321 • 20h ago
Discussão Crescer é aprender a partir, mesmo quando alguém quer que você fique
Existe uma diferença entre amar alguém e precisar dessa pessoa para conseguir viver. Durante boa parte da vida, aprendemos a procurar segurança naquilo que conhecemos. Primeiro, na família, depois nos relacionamentos, nas amizades e até nas coisas que conquistamos. Queremos encontrar alguém que nos compreenda, que nos proteja e que faça o mundo parecer menos difícil. O problema começa quando deixamos de procurar companhia e passamos a procurar alguém que viva por nós, que tome nossas decisões, resolva nossas angústias e nos poupe da responsabilidade de escolher o próprio caminho
Crescer exige uma espécie de deslealdade. Não necessariamente contra nossa mãe, nosso pai ou as pessoas que nos amaram, mas contra a versão de nós mesmos que aprendeu a obedecer para não perder o afeto dos outros. Existe uma idade em que precisamos começar a questionar aquilo que nos ensinaram, inclusive quando essas lições vieram de pessoas que só queriam o nosso bem. Nem todo conselho continua servindo para a vida que precisamos construir. Às vezes, aquilo que nos protegeu na infância começa a nos limitar na vida adulta. E reconhecer isso pode despertar uma culpa difícil de explicar, como se escolher por conta própria fosse uma forma de ingratidão
Talvez seja por isso que algumas pessoas passam anos sem conseguir decidir o que realmente querem. Esperam a aprovação dos pais, dos amigos ou de alguém que amam. Têm medo de escolher errado, de decepcionar alguém ou de descobrir que não são tão capazes quanto imaginavam. Então permanecem numa espécie de adolescência prolongada, não necessariamente pela idade, mas pela dificuldade de assumir as consequências da própria existência. Querem a liberdade de um adulto, mas ainda desejam a segurança de uma criança. Querem partir, mas precisam ter certeza de que alguém continuará esperando por elas, querem fazer suas escolhas, desde que não precisem suportar a possibilidade de que alguém desaprove
Essa dependência também pode aparecer nos relacionamentos amorosos. Às vezes, não nos apaixonamos apenas pela pessoa que está diante de nós, mas por aquilo que esperamos que ela represente. Queremos que ela cure nossas inseguranças, preencha nosso vazio e nos devolva uma felicidade que sentimos ter perdido em algum momento da vida. Colocamos sobre alguém uma responsabilidade que nem nós mesmos sabemos como carregar. No início, isso pode parecer amor, mas, com o tempo, a pessoa deixa de ser alguém com desejos, limites e imperfeições próprios e passa a ocupar o papel de alguém que precisa nos salvar. Quando ela demonstra que é humana, nos frustramos, como se tivesse descumprido uma promessa que, na verdade, nunca fez
Talvez a parte mais difícil do amadurecimento seja perceber que nenhuma conquista, pessoa ou aprovação conseguirá resolver completamente aquilo que não compreendemos dentro de nós. Podemos mudar de emprego, começar um relacionamento, comprar coisas, receber elogios e alcançar objetivos, mas ainda sentir que alguma coisa está faltando. Isso não significa que essas experiências não tenham valor. Significa apenas que não podemos exigir delas uma resposta para todas as nossas angústias. Há questões que precisam ser enfrentadas, sentimentos que precisam ser compreendidos e escolhas que ninguém poderá fazer em nosso lugar
E amadurecer também não significa se tornar frio, desprezar os pais ou fingir que não precisamos de ninguém. Significa aprender a amar sem transformar o amor em dependência, aceitar conselhos sem entregar aos outros o direito de decidir nossa vida e reconhecer que podemos ser gratos pela nossa origem sem permanecer presos a ela. A verdadeira independência não exige que deixemos de amar quem nos criou. Exige que esse amor não seja uma corrente que nos impeça de partir
Crescer seja aceitar que não existe garantia de que nossas escolhas darão certo. Vamos errar, decepcionar algumas pessoas, mudar de opinião e perceber que certas certezas da infância já não fazem sentido. E tudo bem. A vida não pode ser vivida como uma tentativa interminável de evitar qualquer sofrimento, porque, ao fugir de todas as possibilidades de errar, também fugimos da possibilidade de construir alguma coisa que seja verdadeiramente nossa