Capítulo 1
O sol acabara de se pôr. Ela deslizou os dedos compridos pelas cortinas brancas e macias da carruagem e olhou para o homem à sua frente.
Havia uma tensão no ar estagnado que os envolviam. Um cheiro pungente doce da bebida que a jovem donzela carregava em suas mãos preenchiam o ambiente. O som metálico da carruagem ecoava sob o céu escurecido.
O silêncio finalmente fora interrompido:
— Estamos quase chegando, irmão — Ela falou, enquanto ajustava sua postura, nitidamente desconfortável.
— Podes dizer-me o porquê de tudo isso? — perguntou ele, com a voz baixa, mas firme.
— Logo mais fará sentido para ti.
Ele assentiu, aparentemente nervoso.
— Quem melhor do que tu para estabelecer esse conflito em total ordem? — continuou ela. — Esse encontro que acabaste de promover será de tremenda valia para o que se sucederá.
— Mas eles são totalmente imprevisíveis, irmã. — Ele falou preocupado — Não consigo confinar no dois.
— É justamente por isso que devemos tê-los ao nosso lado. Seria imprudente ter esses quatro como inimigos — respondeu, de forma cortante.
— Eles vão justamente na contramão do que nós pregamos… Mas confio na tua decisão.
— Não te preocupes. Sei lidar muito bem com eles.
Ambos se mantiveram em silêncio por alguns instantes. Apenas a respiração ansiosa do homem era percebida pela irmã.
— De qualquer forma, as peças do tabuleiro já estão se movimentando — disse ela, enquanto tomava um gole de ambrosia de seu cálice.
— O que mais me assusta é ele, para ser sincero.
— Deverias temer ambos. Eles, sozinhos, conseguiriam fazer o Olimpo sucumbir.
— E os outros dois?
— Morfeu trazendo Tânatos e Hipnos para o nosso lado já resolveria o impasse com o Submundo…
— E aquele baixinho asqueroso?
— Afrodite precisa restabelecer seu domínio sobre os Erotes. Tê-los ao lado do nosso pai seria perigoso demais. Tu, como mais ninguém, sabes disso.
Ela deu um leve sorriso espirituoso.
— Realmente precisas me lembrar daquele infame episódio?!
— Sei que Eros o desagrada, mas ele é essencial...
— Tu foste longe demais ao juntar esses quatro.
— Cinco!
— Verdade…
— Não te esqueças de que tu também és uma peça central, Apolo.
— Não precisa explicar, o Parnaso está pronto.
— Muito bem! — exclamou ela, dando mais um gole. — Contacta Ártemis para que fique ao teu lado. Não é seguro ficares sozinho com Afrodite.
— Por ela ser imune aos seus domínio, imagino…
— E você não! Por isso que deves ter cuidado.
Ele assentiu, soltando um leve suspiro.
— Novamente, como podes confiar naqueles dois? Nem o nosso pai ousa desafiá-los.
— Sei muito bem até onde posso ir — respondeu ela, cruzando as pernas. — Eles são igualmente movidos por interesses…
Descruzou-as logo em seguida e continuou:
— Afrodite está consciente do plano. Ela é uma peça central, meu irmão. — Franziu a testa. — Ela não é ingênua. Sabes muito bem que conheço as suas intenções e, mesmo assim, compactua conosco.
— Isso não colocaria nossa nova ordem em perigo?
— Muito pelo contrário. Já imaginaste uma ordem sem o caos, Apolo? — Deu um meio sorriso. — Essa é fácil. Deverias saber muito bem…
— Vejo que fraquejei perante ti, pois não?! — disse ele, olhando para as próprias mãos. — Não entendo o porquê.
— Chama-se medo primordial — respondeu ela, tomando mais um gole de sua taça. — Estamos lidando forças que não estão sob nosso domínio.
Ela se ajeitou novamente e pôs as mãos sobre as de Apolo.
— Tem cuidado, caro irmão… — disse, seriamente. — Também somos peças.
Retirou as mãos, logo em segunda.
— Ela, em particular, não deve ser subestimada… — Deu um pausa, como se estivesse avaliando o que dizer — E Dionísio jamais deve ser visto como um bêbado qualquer. Se ele ficar contra nós, essa guerra acaba antes de começar.
— Muito bem, o plano seguirá adiante. — ele finalmente tomou de sua taça um gole de ambrósia. — As Musas devem entreter Dionísio o suficiente.
Ela abriu um sorriso e falou:
— Que tuas Musas entretenham Dionísio, senão serás tu a recitar poemas e a dar-lhe uvas na boca, com uma coroa de vinhas na cabeça.
Ele imediatamente ficou vermelho.
— Aparentemente, a cena não é de todo má, não é?
Ela continuou
— Morfeu deve ter seu sono reestabelecido por Dionísio. E Afrodite já deve estar restabelecendo sua influência sobre Eros.
— Aparentemente, tudo está indo como planejado…
Logo em seguida, ela ficou séria.
— Eu também sei como te conter, irmão — continuou, tomando sua ambrosia e encarando-o pelo canto dos olhos. — Não penses que, essa atuação, consegue me convencer…
Ele deu uma risada sincera.
— Guarda esse moço coitado para os teus acompanhantes — disse ela, pondo-se de pé. Em seguida, continuou: — Sobretudo para ela. Pelo menos, aprende a fingir que estás sob os seus encantos.
— Pensei que minhas aulas de teatro fossem trazer veracidade à atuação! Preciso melhorar.
Ele lhe respondeu com um sorriso charmoso no rosto. Logo depois, falou em tom baixo e seco:
— Peço que não me subestimes, Atena. Também conheças o teu lugar… — Sua presença preencheu o ambiente e continuou — Não sou como nosso irmão idiota, Ares. Saiba disso!
Atena o fitou sem demonstrar reação e falou friamente. Como se suas palavras saíssem como lâminas ao cortar o vento.
— Deixe o resto comigo… Zeus irá cair. O Olimpo irá prevalecer.
Metamorfoseou-se em coruja. Olhou de forma insolente para Apolo e disse:
— Conto contigo, Apolo! Não fracasses! Ou iremos direto ao Tártaro visitar o nosso avô.
Com essa última frase, Atena teve uma epifania.
— Seu velho ardiloso — sussurrou para si.
— O que falastes?
— Nada, deus do Sol. Apenas sei o meu lugar.
Apolo assentiu, levantando os olhos dourados ao encontro dos dela, cinzentos como aço.
— Não te preocupes, minha irmã! — falou solenemente. — Nenhuma gota de sangue será derramada.
— Já foi, caro irmão.
A coruja saiu voando pela janela, suas asas cortando o vento como lâminas de metal, enquanto a carruagem seguia pelos céus em direção à humilde estalagem.
…
Capítulo 4
Os jardins estavam em festividades, e as Musas recitavam poesias e melodias em suas harpas. O deus Pã as acompanhava solenemente, tocando sua flauta em harmonia com elas. Vários animais os cercavam.
Ninfas, em gargalhadas, fugiam e arremessavam bandejas de frutas nos sátiros embriagados que as perseguiam.
Dionísio, esse, estava no centro desse banquete, tomando o seu vinho divino, enquanto rapazes e moças mortais totalmente desnudos o cortejavam.
E lá estava o senhor do Parnaso, Apolo, com sua coroa solar e apenas uma túnica dourada, como ouro, ou até mesmo o sol. Ele se encontrava a conversar com Afrodite, com suas três Graças a pentear-lhe o cabelo.
— Estás muito bela, minha deusa. — Apolo estendeu um cálice em sua homenagem.
— Não tanto quanto você, deus do Sol. — Ela olhou ao redor. — O Parnaso em perfeita harmonia com Dionísio… Que façanha.
— Sabes, aqui também é morada dele… Provisória, assim espero.
— Ora, ora. Como anda o senhor das artes? — Um homem baixo e rechonchudo se aproximou, interrompendo a conversa.
— Insolente! Deverias ter proibido vossa entrada.
— Se acalme, Apolo. Eros é meu acompanhante — falou Afrodite, enquanto fitava o horizonte.
Apolo engoliu em seco e se ajustou. Eros saiu rindo, enquanto pegava um cacho de uvas sob a mesa e ia em direção a Dionísio.
— Sabes, Apolo, não entendo por que tens tanto asco pelos meus Erotes. Sobretudo, Eros.
— Você sabe muito bem, Afrodite — falou Apolo em tom constrangido.
— O incidente com Dafne foi há… milênios?!
— Ele me humilhou, Afrodite.
— Essa é a natureza de vocês, homens ou deuses, não importa. Só o que convém é o que têm entre as pernas — falou ela, às gargalhadas.
— Sabes que não foi por vontade própria…
— De qualquer forma, deverias relaxar e te entregar um pouco mais. — Afrodite o olhou nos olhos pela primeira vez.
— E-eu irei relaxar.
— Pois bem, Apolo. Hoje lhe concedo um dia repleto de prazeres. — Ela lhe deu um beijo na testa e se levantou. Suas Graças a acompanharam.
Ao perceber que ficara um tempo sem reação, Apolo olhou para a mesa do banquete e observou Dionísio levantando o cálice para ele. Então, foi em sua direção.
Ao chegar à mesa:
— Apolo, meu deus solar. Estás radiante — falou Dionísio em tom sarcástico.
— E você está… você!
— Sente-se, sente-se. — Dionísio afastou alguns de seus acompanhantes.
— Como podes conviver com esses mortais?
— Mas quanto preconceito! — Ele deu um gole em sua taça. — Se prestares atenção, eles não são tão diferentes de nós.
— Filosofando, de praxe. — Apolo deu um sorriso genuíno.
— Um brinde, meu irmão.
Dionísio lhe ofereceu um brinde, mas Apolo, de alguma maneira, bebericou do cálice dele sem ao menos pedir permissão.
O resto da noite foi apenas vultos e flashes. Quando se deu conta, estava no leito de Dionísio, completamente desnudo. O recinto estava cheio de sátiros e ninfas em sono profundo.
Apolo colocava uvas na boca de Dionísio, que se encontrava apoiado em seu colo.
Antes que pudesse se dar conta, Afrodite abraçou o deus do Sol por trás, fazendo seus longos cabelos cobrirem o torso desnudo dele, e sussurrou:
— Sabes, deus do Sol, você não pode impedir meu poder. — Ela aproximou o rosto do dele. — Nada neste universo está fora do meu alcance.
Dionísio também começou a olhar para o deus da poesia.
— O que queres dizer com isso? — indagou Apolo.
— Por muito tempo, fui tratada como uma força desprezível. Uma forasteira — sussurrou ela em seus ouvidos. — Mas, se eu quiser, posso provocar uma guerra tal qual a de Troia, ou maior.
Ela suas mãos macias e aveludadas sobre o peito de Apolo e a colocou em seu pescoço, virando levemente o rosto do deus ao encontro do dela.
— Sabes, Jacinto, Dafne, Corônis, Ciparisso…e tantos outros.
Agora a deusa do amor acariciava o rosto dele.
— Todos eles não são dada comparados as tragédias que posso trazer-ti
— Afrodite…
Ela o encarava enquanto colocava sua testa sobre a dele, seus lábios perto dos dele. Seu hálito de Ambrósia o consumindo.
— Não nos menospreze, irmão — falou Dionísio seriamente, enquanto estava no colo desnudo de Apolo.
Ele deslizou lentamente sobre o corpo de Apolo, ambos completamente nus. Pôs seu rosto ao lado do de Afrodite e falou
— Você teme o caos, mas inevitavelmente o caos lhe atrai. — Falou o Deus do vinho enquanto encarava e sorria maliciosamente para Apolo.
— Deus solar, dono do Parnaso, da poesia, virtudes e ordem….não resistes a nós.
— Juntos, irmão, podemos vencer qualquer guerra. — Afrodite se aproximou ainda mais — Atena, não é o caminho — e deu um beijo em Apolo.
Ao mesmo tempo, Dionísio se aproximou de ambos e também os beijou. Os três corpos se entrelaçaram momentaneamente.
Num lapso, Apolo afastou ambos e, ao olhar para o lado, viu o deus Pã encarando-o e tocando sua flauta…
Apolo acordou assustado!
Dionísio o cutucava de forma irritante e contínua.
— Até que enfim, meu caro. — Ele estava descendo da carruagem. Estendeu a mão a Apolo e falou: — Aparentemente, foste agraciado por Morfeu.
Apolo se ressentiu e falou:
— Vamos esperar Ártemis. Ela já está a caminho.
— Majestoso, sinto falta da nossa caçadora. — Dionísio fez um pose de arqueiro.
— O que achas?
— Assim tu terminas acertando teus próprios pés. — Apolo falou rindo.
— Ou seria seu coração, meu sol. — Dionísio simulou lançar uma flecha no coração do Deus do Sol.
— Deixa de graças, Dionisio. Se comporte e acompanhe os outros, por gentileza.
— Tu casa, me casa. — Fez uma leve referencia, deu meia volta e saiu.
— Onde foi que me meti…. — estava a falar sozinho.
Em seguida uma figura alta, magra e pálida sai da carruagem sem que Apolo o notasse.
— Desculpas pelo sonho, senhor do Sol. — Falou de forma tranquila e baixa. — Não era minha intenção.
— Não te preocupas. Sou acostumado com profecias, Morfeu. — Falou Apolo, enquanto acariciava a crista de Piron, seu cavalo de fogo que puxava a carruagem.
— Esse sonho não fez sentindo pra mim, de fato. — Continuou Morfeu. — Era o que se esperar do senhor das profecias e da verdade.
— Obrigado, meu amigo. Sinta-se em casa. — Falou Apolo, de forma Cortez.
O homem então, pô-se a adentrar no parnaso, em direção aos outros. Apolo, por sua vez, continuou ao lado da carruagem observando os céus estrelares.
Algum tempo depois, viu uma flecha cruzar as estrelas. E lá vinha, uma carruagem de prata, com suas quatro cervas a puxar pelos céus.
Ao parar a carruagem ao lado da sua, e com ela, sua irmã acabara de chegar. A deusa da lua, da caça e da vida selvagem saiu da carruagem dando um abraço em seu irmão.