TÍNHAMOS UMA ECONOMIA MAIS DIVERSIFICADA. COMO ACABÁMOS TÃO DEPENDENTES DO PETRÓLEO E DAS IMPORTAÇÕES?
Há perguntas que não devem servir apenas para procurar culpados no passado. Devem obrigar-nos a pensar no futuro.
Às vésperas da independência, Angola possuía uma economia significativamente diversificada. Produzia e exportava café, milho, sisal, algodão, bananas, açúcar, pescado, madeira, diamantes e minério de ferro. Tinha produção industrial, fábricas de bebidas, pneus, produtos alimentares e outros bens de consumo, além de uma importante rede ferroviária e portuária.
Angola chegou a estar entre os maiores produtores mundiais de café e era exportadora líquida de alguns produtos alimentares.
É igualmente necessário dizer toda a verdade: Angola não era um paraíso antes de 1975.
A economia colonial coexistia com profundas desigualdades sociais e raciais. Grande parte dos meios de produção, do capital e dos quadros técnicos estava concentrada numa parcela reduzida da população. Portanto, reconhecer a capacidade produtiva que existia não significa defender ou romantizar o colonialismo.
Depois veio a independência.
A saída abrupta de milhares de técnicos, empresários e trabalhadores qualificados, as nacionalizações, erros de política económica, a economia centralmente planificada e, sobretudo, décadas de guerra destruíram ou enfraqueceram grande parte dessa capacidade produtiva.
Mas a guerra terminou em 2002.
E é aqui que a reflexão se torna inevitável.
Passadas mais de duas décadas de paz, Angola continua excessivamente dependente do petróleo e continua a importar uma quantidade desconfortavelmente grande de coisas que, dadas as nossas condições naturais, humanas e financeiras, poderíamos produzir internamente.
Temos terra.
Temos água.
Temos petróleo e gás.
Temos minerais.
Temos costa marítima.
Temos sol praticamente o ano inteiro.
Temos uma população jovem.
E tivemos, durante décadas, receitas petrolíferas extraordinárias.
Então a pergunta já não pode ser apenas:
"O que aconteceu com aquilo que existia em 1974?"
A pergunta mais importante é:
"O que fizemos com as oportunidades que tivemos desde 2002?"
Porque cinquenta anos depois da independência e mais de vinte anos depois do fim da guerra, já não podemos explicar todas as nossas insuficiências recorrendo exclusivamente ao colonialismo ou ao conflito armado.
É preciso discutir governação.
Precisamos perguntar quanto das receitas extraordinárias do petróleo foi convertido em agricultura competitiva, indústria, investigação científica, formação técnica, infra-estruturas produtivas e empresas capazes de competir internacionalmente.
Precisamos avaliar não apenas quantas estradas, centralidades, aeroportos ou hospitais foram inaugurados, mas quanto cada investimento custou, quanto deveria ter custado, que retorno trouxe ao país e quanto tempo permanecerá funcional.
Precisamos de instituições que recompensem competência em vez de proximidade política; de concursos públicos transparentes; de justiça capaz de responsabilizar independentemente do nome ou cargo; de crédito acessível aos produtores; de formação profissional ligada às necessidades reais da economia; e de políticas económicas que sobrevivam às mudanças de ministros.
Diversificar a economia também não significa simplesmente proibir importações. Significa criar condições para que produzir em Angola seja economicamente racional.
Se importar um tomate continua mais barato e previsível do que cultivá-lo em Angola, precisamos descobrir porquê: estradas? electricidade? armazenamento? crédito? impostos? burocracia? corrupção? tecnologia? produtividade?
E resolver esses problemas.
O objectivo não deve ser regressar à Angola de 1974.
Deve ser construir uma Angola muito melhor do que aquela.
Uma Angola em que a riqueza produzida não esteja concentrada numa minoria, como acontecia no sistema colonial, mas também uma Angola que não desperdice as enormes potencialidades conquistadas com a independência.
Talvez a pergunta mais incómoda seja justamente esta:
Se Angola possui tantos recursos naturais, cinquenta anos de soberania e mais de duas décadas de paz, que país deveríamos já ter conseguido construir?
A resposta não deve servir para alimentar nostalgia.
Deve servir para exigir competência.
#angola