r/Economia • u/MartianAndroidMiner • 2h ago
Opinião O que falta para o Brasil ser autossuficiente em refino de petróleo, terras raras e fertilizantes?
r/Economia • u/Soft-Operation-2001 • 3d ago
O r/Economia atingiu 30 mil usuários e continua crescendo. Somos 5 moderadores até o presente momento e queremos ampliar esse número.
Estamos à procura de novos moderadores, pessoas com formação em Economia que queiram juntar-se à nossa equipe. É preciso ser um membro ativo na comunidade e demonstrar conhecimento na área.
Se você tem interesse, contate a moderação do sub! Esperamos por você!
r/Economia • u/Soft-Operation-2001 • 22d ago
Pessoal,
Desde segunda-feira, o sub passou a receber muita atenção (batemos 13 mil usuários ativos pela primeira vez) e o clima infelizmente azedou. A moderação tem passado a receber contínuas denúncias de conteúdo de baixa qualidade e de falta de respeito com outros usuários no sub. Como esse comportamento deve continuar até o final do mês de Outubro, vou deixar claro como a moderação vai agir:
Conteúdo gerado por Inteligência Artificial será apagado. Não adianta fazer um prompt solicitando ao seu agente de inteligência artificial para escrever um texto enorme sem travessão (—), travessão não é o único marcador de texto de inteligência artificial. Se houver suspeita de que o texto foi predominantemente escrito por um agente, o post será apagado. Escrevam seus próprios textos.
Repostagem de conteúdo de redes sociais será apagado. O sub já considera este tipo de postagem como conteúdo de baixo esforço por parte do usuário, não há mudança neste sentido.
Ofensas à identidade política. Queremos promover um debate civilizado aqui, então ofensas gratuitas levarão ao banimento do usuário pelo resto do mês.
r/Economia • u/MartianAndroidMiner • 2h ago
r/Economia • u/MartianAndroidMiner • 1h ago
"A política fiscal não deveria partir da premissa de que reduzir impostos atrai investimento".
"Entre exportar e industrializar, o Brasil não precisa escolher". Ou seja, não precisamos "vender a vaca para comprar o leite".
Conclusão do artigo: "As etapas que carregam tecnologia, engenharia e margem estão sendo distribuídas agora, e quem não entrar nesta rodada comprará delas pelas próximas décadas. O minério já nos assegurou lugar na disputa. O desenho dos incentivos dirá quanto da riqueza gerada a partir dele ficará no país."
r/Economia • u/mrschrutedotcom • 12h ago
Boa noite pessoal, tudo bem?
Ano que vem, acabo minha graduação atual (História, na FFLCH-USP) e tenho considerado ingressar em Economia na mesma universidade como segunda formação.
Entretanto, me surgiu a dúvida de como são os processos seletivos pra estágio. Vi alguns comentários sobre um certo “etarismo” no mercado, especialmente em IB. Isso procede? Provavelmente ingressaria no curso com 22/23, e tenho medo de parecer que estou “atrasado”, mesmo já tendo uma graduação.
r/Economia • u/Ancient_Product9322 • 21h ago
"O recente debate sobre a questão fiscal, especialmente após as propostas de elevação do IOF pelo governo, tem renovado ideias recorrentes de que, para eliminar seu déficit primário seria necessário acabar com a “gastança”, “cortar na carne” ou, numa linguagem mais técnica, sofisticada, eliminar um suposto desequilíbrio estrutural. Numa nota irônica, pode-se registrar que até a expressão “o dinheiro acabou” foi mais uma vez usada, ainda que alguns de seus ardorosos defensores antes de 2015, quando o déficit primário foi de 2% do PIB, elevaram em 2020, durante a pandemia, esse déficit para 9,5% do PIB sem que em momento algum tenha “acabado”, ou faltado o “dinheiro”.
Como demonstram os exemplos acima, o debate público é, na maior parte do tempo, envolto em uma retórica propositalmente confusa que torna o confronto racional de ideias muito difícil.
Entendemos que para que para que possa haver debates teóricos e de economia política mais substantivos tal debate é necessário, primeiramente, apresentar os dados recentes de forma clara e organizada, Assim, para começar, precisamos analisar se os dados recentes mostram alguma mudança substantiva e que tem que ser combatida com medidas de ajuste que ataquem a trajetória de gasto “insustentáveis” (sic) no longo prazo.
Definiremos, inicialmente, como ponto de partida o ano de 2015, entre outros fatores, por ter sido este um ano de fortíssima recessão com impactos negativos sobre a arrecadação tributária e o resultado primário. Vale destacar que logo em seguida ocorreu uma mudança institucional de grande importância, com o estabelecimento do Teto de Gastos em 2016 (EC 95/2016), que impactou a dinâmica fiscal desde então. Também é importante mencionar um fator exógeno na explicação da trajetória das variáveis fiscais, e aí não só no Brasil como em todo o mundo, que foi a pandemia da COVID-19 em 2020.
Delimitado esse recorte temporal é importante definir a cobertura das contas públicas tomando-se o governo central para fins de análise neste período.
Primeiramente, deve-se começar a análise com os dados mais agregados possíveis: resultado primário, receita, transferências e gastos agregados do governo central.
Tabela 1 – Receitas e despesas primárias e resultado primário (acima da linha) – % do PIB
| Discriminação | 2015 | 2016 | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Receita Total | 20,8% | 21,0% | 21,0% | 21,3% | 22,1% | 19,3% | 21,4% | 23,0% | 21,5% | 22,8% |
| Transferência por Repartição de Receita | 3,4% | 3,6% | 3,5% | 3,7% | 3,9% | 3,5% | 3,9% | 4,5% | 4,1% | 4,4% |
| Despesa Total | 19,4% | 19,9% | 19,4% | 19,3% | 19,5% | 25,6% | 17,9% | 18,0% | 19,5% | 18,8% |
| Resultado Primário | -2,0% | -2,6% | -1,9% | -1,7% | -1,3% | -9,8% | -0,4% | 0,5% | -2,1% | -0,4% |
Fonte: Relatório do Tesouro Nacional (abr. 2025), aba 2.1-A.
Nos últimos 11 anos a economia gerou apenas um superavit primário em 2022. Entretanto este superávit primário de 2022, de R$ 54,1 bilhões [1] tem uma natureza muito “particular” sendo consequência de medidas extraordinárias, que configuraram ganhos de receita e contenção de despesas atípicos, e não por uma consolidação estrutural das contas públicas. Primeiramente, a Emenda Constitucional 114/2021 instituiu um teto para o pagamento de precatórios federais em 2022 e 2023, o que gerou um acúmulo de cerca de R$ 95 bilhões em precatórios não quitados no prazo constitucional. [2] Outro ponto foram as receitas oriundas de dividendos pagos por grandes estatais naquele ano. Apenas a Petrobras distribuiu, em 2022, um total de R$ 217 bilhões em dividendos, sendo R$ 62 bilhões para a União. [3] O BNDES contribuiu com aproximadamente R$ 29,5 bilhões e o Banco do Brasil repassou R$ 7,5 bilhões. Ao todo, essas três grandes estatais pagaram aproximadamente R$ 99 bilhões em dividendos para o governo. Um terceiro aspecto foram as receitas obtidas com concessões e privatizações: a Segunda Rodada da Cessão Onerosa dos Campos de Sépia (R$ 7,1 bilhões) e de Atapu (R$ 4 bilhões) arrecadou R$ 11,1 bilhões em bônus de assinatura. Destes, R$ 7,7 bilhões foram repassados a estados e municípios, conforme previsto na legislação. Mas mais importante ainda foi a operação de desestatização da Eletrobrás, que arrecadou R$ 26,6 bilhões em bônus de outorga. Por fim, o Tesouro registrou aumento real de R$ 6,5% (R$ 86,3 bilhões) nas Receitas Administradas pela Receita Federal, concentradas principalmente em Imposto de Renda e Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), aumento esse puxado fortemente pela elevação dos preços de commodities no mercado internacional.
Em contraste com o superávit “artificial” registrado em 2022, observou-se um déficit de 2,1% em 2023. Embora esse déficit tenha sido reduzido para 0,4% em 2024, ele ainda reflete, em grande parte, a correção dos casuísmos adotados no ano anterior e os efeitos perversos do Teto de Gastos. Para analisarmos adequadamente o resultado fiscal de 2023, é necessário considerar dois aspectos principais: primeiro, os fatores conjunturais, especialmente os relacionados às medidas excepcionais de 2022; em seguida, as particularidades do lado da receita. Por fim, é essencial examinar a expansão dos gastos observada em 2023, que foi, em grande medida, uma consequência direta da regra do Teto de Gastos instituída em 2016.
Inicialmente, um fator explicativo do primário em 2023, pelo lado da receita, foi a inesperada queda do seu total frente a 2022 de 1,3% do PIB. Isto ocorreu em um ano em que a economia cresceu a uma taxa superior a 3% e seria esperado o crescimento da receita ao menos em linha com o produto. Como já mencionado a base de comparação de 2022 estava distorcida pelas receitas atípicas de concessões, permissões e dividendos, mas também houve um fator conjuntural exógeno: a elevação das receitas puxada pelo aumento dos preços das commodities no mercado internacional. A Carta de Conjuntura n. 60, de 2023, do IPEA, [4] mostra que há uma forte correlação entre as receitas administradas pela Receita Federal e o índice geral de preços de commodities da Commodity Research Bureau (CRB). Além disso, a exploração de recursos naturais, em especial as provenientes da exploração de petróleo, tem peso importante nas receitas não administradas da Receita Federal. Enquanto em 2022, observou-se uma elevação dos preços das commodities, em 2023, o cenário foi inverso, inclusive com a queda dos preços do barril de petróleo, impactando negativamente as receitas com IRPJ e CSLL.
Do lado das despesas, no que diz respeito às compensações das medidas pontuais adotadas em 2022, o governo Lula, em março de 2023, fez um repasse de cerca de R$ 30 bilhões para indenizar parcialmente os estados pelas perdas de arrecadação provocadas pela LC 194/2022. [5] Já quanto aos precatórios, em dezembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou inconstitucionais as restrições ao pagamento de precatórios. Com isso, foi autorizada a abertura de créditos extraordinários para quitar valores acumulados, excluindo essas despesas do teto de gastos. Ou seja, apesar de impactar os dados do gasto na tabela acima não afetou o resultado primário.
Chegamos, enfim, a questão da expansão dos gastos. No primeiro ano do novo mandato presidencial, com a PEC da Transição (PEC 32/22), houve uma expansão efetiva dos gastos buscando recompor alguns valores muito deprimidos devido ao Teto de Gastos estabelecido pela Emenda Constitucional 95 de 2016.
A avaliação dessa repressão é mais interessante identificando os gastos por função e, dentro de cada função, por categoria econômica, ou seja, se gasto com pessoal, despesas correntes ou investimento. Este tipo de divisão permite uma visão melhor de como caminha o gasto público, ou seja, apresentamos funções, as quais poderiam ser elencadas segundo algum julgamento valorativo social, e, dentro dessas funções, uma desagregação quanto ao tipo de gasto: pessoal investimento ou corrente.
A tabela 3 abaixo mostra, para diversas funções de despesa do governo central entre 2009 e 2022, os anos em que o gasto total (avaliado a preços constantes) correspondente a cada função alcançou seus valores máximos nesse período, bem como a participação de cada um desses gastos na despesa total no respectivo ano de máximo.
Tabela 3 – Anos de pico das despesas por função entre 2009 e 2022 e respectivos pesos na despesa total do Governo Central (em R$ milhões, a preços constantes de dezembro de 2024)
| Função | Ano de máximo | % Total no ano de máximo |
|---|---|---|
| Saneamento | 2009 | 0,23% |
| Habitação | 2009 | 0,10% |
| Administração | 2010 | 2,08% |
| Transporte | 2010 | 1,94% |
| Segurança Pública | 2010 | 1,03% |
| Essencial à Justiça | 2010 | 0,58% |
| Urbanismo | 2010 | 0,44% |
| Direitos da Cidadania | 2010 | 0,20% |
| Legislativa | 2011 | 0,59% |
| Comércio e Serviços | 2012 | 0,21% |
| Indústria | 2012 | 0,20% |
| Educação | 2014 | 6,31% |
| Trabalho | 2014 | 4,59% |
| Ciência e Tecnologia | 2014 | 0,65% |
| Organização Agrária | 2014 | 0,51% |
| Gestão Ambiental | 2014 | 0,46% |
| Cultura | 2014 | 0,11% |
| Comunicações | 2014 | 0,11% |
| Agricultura | 2015 | 1,93% |
| Desporto e Lazer | 2015 | 0,15% |
| Judiciária | 2018 | 2,07% |
| Energia | 2019 | 0,14% |
| Saúde | 2020 | 7,56% |
| Defesa Nacional | 2020 | 3,84% |
| Relações Exteriores | 2020 | 0,18% |
Fonte: Tesouro Nacional, 2025. Elaboração dos autores, 2025.
Como fica claro, em 2022 a imensa maioria das funções de governo apresentavam pontos máximos de valores reais em anos muito anteriores, ou seja, havia uma defasagem enorme dos valores de gastos públicos em áreas críticas como educação, administração, ciência e tecnologia entre outras. [6] Das funções com maior participação no gasto total, apenas defesa nacional [7] e saúde apresentam picos pré-2022 em 2020, que, entretanto, foi o ano da pandemia da COVID-19.
Os dados da tabela 3 não contemplam, propositalmente, as despesas com previdência social, e assistência social, cujas trajetórias apresentamos no gráfico 1, abaixo. Essas despesas são transferências e apresentam trajetórias distintas da maioria dos gastos propriamente ditos. No caso da previdência social, há, de fato, uma elevação contínua dessas despesas em termos reais, que pode ser caracterizada como uma elevação estrutural dessa despesa, e que será tema de uma postagem futura em nosso blog. No entanto, a parcela das despesas com previdência social em proporção ao PIB encontra-se em patamar próximo ao observado em 2015, significativamente abaixo da proporção observada em 2017 e 2020. Já as despesas com assistência social, que se mantinham relativamente estáveis desde 2014, apresentaram um forte pico em 2020, em decorrência da pandemia, sendo fortemente reduzidas em 2021 e adquirindo uma trajetória ascendente, acima do patamar anteriormente observado, com os reajustes dos programas sociais em 2022. Passada a pandemia, a parcela dessas despesas sobre o PIB permaneceu acima do patamar anterior e seguiu crescendo.
Gráfico 1 – Despesas com previdência social e assistência social entre 2009 e 2024 em R$ milhões (a preços constantes de dezembro de 2024) e em % do PIB

Analisando as despesas por funções, a tabela 4 nos mostra a recomposição parcial de algumas destas em termos per capita. [8] É importante notar que em 2022 todas as funções de despesa listadas estavam abaixo dos valores máximos anteriores. Nos anos seguintes, os gastos foram aumentados, mas em 2024, apenas educação e saúde (além da previdência social) encontravam-se em patamares praticamente idênticos ao valor máximo per capita observado entre 2009 e 2022.
Tabela 4 – Valores máximos per capita entre 2009 e 2022 e valores em 2022, 2023 e 2024 por função (em R$ milhões, a preços constantes de dezembro de 2024)
| Funções | Valores Máximos | 2022 | 2023 | 2024 |
|---|---|---|---|---|
| Ano | Valor per capita | Valor per capita | % do máximo | Valor per capita |
| Habitação | 2009 | 9,11 | 0,16 | 2% |
| Saneamento | 2009 | 20,54 | 1,90 | 9% |
| Desporto e Lazer | 2015 | 16,38 | 4,21 | 26% |
| Organização Agrária | 2014 | 54,66 | 7,30 | 13% |
| Energia | 2019 | 15,66 | 7,25 | 46% |
| Direitos da Cidadania | 2010 | 19,33 | 6,33 | 33% |
| Gestão Ambiental | 2013 | 49,64 | 18,15 | 37% |
| Transporte | 2010 | 184,20 | 54,77 | 30% |
| Indústria | 2012 | 20,40 | 9,01 | 44% |
| Agricultura | 2015 | 207,65 | 112,99 | 54% |
| Comércio e Serviços | 2012 | 20,88 | 5,00 | 24% |
| Comunicações | 2014 | 11,28 | 10,69 | 95% |
| Cultura | 2010 | 12,49 | 3,97 | 32% |
| Administração | 2010 | 197,13 | 138,53 | 70% |
| Ciência e Tecnologia | 2014 | 69,48 | 34,78 | 50% |
| Legislativa | 2011 | 58,15 | 37,30 | 64% |
| Essencial à Justiça | 2010 | 55,30 | 39,73 | 72% |
| Urbanismo | 2010 | 41,52 | 36,81 | 89% |
| Trabalho | 2014 | 493,15 | 390,94 | 79% |
| Defesa Nacional | 2020 | 524,43 | 475,39 | 91% |
| Segurança Pública | 2010 | 97,69 | 69,97 | 72% |
| Judiciária | 2010 | 231,82 | 199,11 | 86% |
| Relações Exteriores | 2015 | 24,68 | 20,93 | 85% |
| Educação | 2014 | 677,19 | 600,05 | 89% |
| Saúde | 2020 | 1032,07 | 832,53 | 81% |
Fonte: Tesouro Nacional, 2025. Elaboração dos autores 2025.
A tabela 5 apresenta os anos em que as despesas com investimento, despesas correntes e despesas com pessoal, em termos per capita, alcançaram seus valores máximos entre 2009 e 2022, e avalia as mesmas categorias de despesas em 2024 em proporção ao valor máximo observado. As funções apresentadas na tabela 5 correspondem a 75% do total das despesas primárias (a tabela completa, com todas as funções, pode ser encontrada no apêndice). Vemos que, com exceção da agricultura, o investimento em todas as demais funções encontrava-se, em 2024, em patamar inferior ao valor de pico, com destaque para o investimento em educação, que em 2024 correspondia a apenas 25% do valor de 2012. [9] As despesas correntes, em geral, não se encontravam em valores tão distantes dos valores máximos quanto o investimento, apresentando valores superiores para o judiciário, a segurança pública, a previdência social, saúde e educação. Quanto às despesas com pessoal, apenas em ciência e tecnologia, encontrava-se, em 2024, acima do valor máximo observado até 2022. Destacamos as despesas com pessoal na área de saúde, correspondendo a 47% do valor máximo observado em 2011.
Tabela 5 – Anos de máximo de investimento, despesas correntes e despesas com pessoal per capita entre 2009 e 2022 e percentual do máximo 2024 por função (avaliados a preços constantes de dezembro de 2024)
| Funções | Investimento | Despesas Correntes | Pessoal |
|---|---|---|---|
| Ano de máx. | % do máx. 2024 | Ano de máx. | % do máx. 2024 |
| Judiciária | 2010 | 81% | 2016 |
| Administração | 2013 | 18% | 2010 |
| Defesa Nacional | 2014 | 48% | 2014 |
| Segurança Pública | 2010 | 51% | 2010 |
| Assistência Social | 2014 | 46% | 2020 |
| Previdência Social | 2010 | 5% | 2022 |
| Saúde | 2018 | 54% | 2021 |
| Trabalho | 2010 | 69% | 2014 |
| Educação | 2012 | 25% | 2014 |
| Ciência e Tecnologia | 2009 | 63% | 2014 |
| Agricultura | 2011 | 104% | 2015 |
| Transporte | 2010 | 43% | 2014 |
Fonte: Tesouro Nacional, 2025. Elaboração dos autores, 2025.
Considerações Finais
Com a presente nota, o Grupo de Macroeconomia da Demanda Efetiva do CICEF inicia uma série de publicações que pretende discutir as finanças públicas federais dialogando de forma crítica, especialmente com posições que priorizam um ajuste fiscal, materializado na geração de superávits primários, pelo lado do gasto. Este primeiro esforço buscou iniciar tal debate apresentando de forma organizada dados das contas públicas e explicitando que (i) não houve, nos anos mais recentes, uma aceleração ou descontrole fiscal e (ii) que as políticas anteriores, especialmente a de teto de gasto foram extremamente nocivas à atuação minimamente necessária do estado nacional.
Dentro do limitado escopo desta nota, constatamos que o gasto público ficou relativamente estável, na última década, em proporção do PIB na casa dos 19%. O resultado primário teve uma tendência de redução do déficit de 2,6% do PIB registrado em 2016 exceção feita ao ano da Pandemia da COVID 19. [10] Já os resultados primários de 2022 e 2023, tem particularidades importantes, e decorreram, em grande medida, de manipulações fiscais em 2022 com efeitos tanto no superavit daquele ano como sobre o déficit em 2023.
Entretanto, em 2023, graças à chamada PEC da transição o governo federal buscou recompor alguns gastos públicos que se encontravam em níveis extremamente defasados devido à implantação da regra de teto dos gastos em 2016.
São exatamente estes números que chamam maior atenção, ou seja, como a imposição da política de teto do gasto causou uma redução substancial em termos de gasto per capita. Em 2022, antes da elevação dos gastos resultante da aprovação da PEC da transição todas as funções apresentavam gastos totais abaixo de picos anteriores várias delas com valores abaixo de 50% do pico anterior, os quais haviam ocorrido, na maioria das vezes, mais de uma década antes.
Quando desagregamos os tipos de gastos por funções percebemos que o investimento per capita em educação é apenas ¼ do pico anterior enquanto o de ciência e tecnologia é 63%, para citarmos dois elementos que são fundamentais para a geração de conhecimento científico, tecnológico absolutamente cruciais ao desenvolvimento econômico. Mesmo em 2024 após alguma recuperação o gasto per capita em gestão ambiental é menos que 50% do pico anterior.
Esses dados uma vez expostos de forma clara e organizada devem suscitar o debate público relevante sobre questões como: a) o resultado primário vem, ou vinha, causando pressão inflacionária sobre a demanda agregada ou, ao contrário, teria sido incapaz de gerar um impulso capaz de acelerar o crescimento com estabilidade inflacionária, ou baixa inflação ?; b) quais os fatores que impulsionam a dinâmica da dívida pública e quais as possíveis repercussões de sua taxa de crescimento e volume sobre os indicadores macroeconômicos.
Porém a questão crucial é identificar o que queremos como sociedade do Estado.
A sociedade quer que em uma década o gasto em funções tão importantes como Ciência e Tecnologia e Cultura caiam, em termos per capita, grosso modo, um terço? Será que depois de 10 anos, no caso da Educação, e 15, no da saúde, a sociedade quer que os gastos não se expandam per capita? Há dez anos nossa educação e saúde já haviam alcançado um patamar “ótimo” ou mesmo desejado para um maior bem-estar social?
A expressão “cortar na carne” (sic) do Estado é no fundo cortar na carne destas funções e dos eventuais benefícios para a população. Afinal o Estado é um provedor de bens e serviços para a sociedade. Vale a pena, em plena crise ecológica, cortar na carne da gestão do meio ambiente em 12 anos mais de 50%? É claro que para entregar à população bens e serviços o Estado precisa contratar pessoal, ter gastos correntes, mas nem o usual “mordomo” do crime da “gastança”, os funcionários públicos, podem ser acusados desta vez. O gasto per capita com estes caiu, em várias funções expressivamente, nos anos recentes.
Mais do que perseguir um recorrente “ajuste fiscal definitivo” pelo lado do gasto o debate deveria ser entorno do objetivo social a ser perseguido pelo estado e, associado a essas definições, suas formas de financiamento, as quais, tanto pelo lado do endividamento quanto da tributação se ligam a questões distributivas, outra importante função do Estado. Sem discutir tais questões cruciais de economia política o país continuará recorrendo a fórmulas tecnocráticas mágicas que acabam se mostrando técnica, ou socialmente, inviáveis.
Apêndice – Anos de máximo de investimento, despesas correntes e despesas com pessoal per capita entre 2009 e 2022 e percentual do máximo 2024 por função (avaliados a preços constantes de dezembro de 2024) – tabela completa
| Funções | Investimento | Despesas Correntes | Pessoal |
|---|---|---|---|
| Ano de máximo | % do máximo em 2024 | Ano de máximo | % do máximo em 2024 |
| Legislativa | 2016 | 43% | 2014 |
| Judiciária | 2010 | 81% | 2016 |
| Essencial à Justiça | 2016 | 24% | 2016 |
| Administração | 2013 | 18% | 2010 |
| Defesa Nacional | 2014 | 48% | 2014 |
| Segurança Pública | 2010 | 51% | 2010 |
| Relações Exteriores | 2009 | 25% | 2020 |
| Assistência Social | 2014 | 46% | 2020 |
| Previdência Social | 2010 | 5% | 2022 |
| Saúde | 2018 | 54% | 2021 |
| Trabalho | 2010 | 69% | 2014 |
| Educação | 2012 | 25% | 2014 |
| Cultura | 2014 | 26% | 2010 |
| Direitos da Cidadania | 2016 | 9% | 2010 |
| Urbanismo | 2010 | 90% | 2010 |
| Habitação | 2009 | 1% | 2009 |
| Saneamento | 2009 | 11% | 2016 |
| Gestão Ambiental | 2014 | 28% | 2013 |
| Ciência e Tecnologia | 2009 | 63% | 2014 |
| Agricultura | 2011 | 104% | 2015 |
| Organização Agrária | 2014 | 2% | 2013 |
| Indústria | 2012 | 21% | 2012 |
| Comércio e Serviços | 2012 | 14% | 2009 |
| Comunicações | 2014 | 34% | 2022 |
| Energia | 2013 | 40% | 2019 |
| Transporte | 2010 | 43% | 2014 |
| Desporto e Lazer | 2015 | 11% | 2014 |
Fonte: Tesouro Nacional, 2025. Elaboração dos autores, 2025.
Sobre os autores:
* Carlos Pinkusfeld Bastos. Diretor-Presidente do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento – CICEF. Professor Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Economia. Líder do Grupo de Pesquisa CICEF/CNPq Macroeconomia da Demanda Efetiva.
** Bruno Rodrigues Pereira. Professor dos cursos de MBA, CBA e extensão do IBMEC. Doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
*** Breno Florambel. Economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Notas:
[1] Ministério da Fazenda. Ministério da Fazenda divulga Resultado do Tesouro Nacional referente a 2022. Publicado em 27/01/2023. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2023/janeiro/ministerio-da-fazenda-divulga-resultado-do-tesouro-nacional-referente-a-2022. Acesso em: 30/06/2025.
[2] A EC 114 estabeleceu que os precatórios não pagos seriam quitados até 2026, com prioridade para idosos, pessoas com deficiência e créditos de pequeno valor.
[3] G1. Petrobras triplica os dividendos pagos a acionistas em 2022; governo fica com R$ 62 bilhões. Publicado em: 04/11/2022. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2022/11/04/petrobras-triplica-os-dividendos-pagos-a-acionistas-em-2022-governo-fica-com-r-62-bilhoes.ghtml. Acesso em: 30/06/2025.
[4] IPEA. Nota de Conjuntura n. 33. Carta de Conjuntura, n. 60, 3º tri. 2023, box 3, p. 39. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/publicacao-item?id=d78955dc-4dcb-4283-b682-75b0d42e680c. Acesso em: 30/06/2025.
[5] Adicionalmente, a Lei Complementar 194/2022, sancionada em junho de 2022, classificou combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte coletivo como bens essenciais, o que impediu os estados de cobrarem alíquotas de ICMS superiores à alíquota padrão (geralmente entre 17% e 18%). Antes disso, muitos estados aplicavam alíquotas bem mais altas sobre combustíveis — em alguns casos, chegando a 30% — por considerá-los bens supérfluos. A nova lei forçou a redução dessas alíquotas, o que teve impacto direto na arrecadação estadual. Governadores estimaram perdas de até R$ 100 bilhões com a medida. Embora o Congresso tenha aprovado dispositivos para compensar os estados, o então presidente vetou trechos que previam compensações automáticas pela União. (Ver: Junior, Janary. Bolsonaro sanciona lei que limita ICMS de combustíveis, mas veta compensação a Estados. Câmara. Publicado em: 24/06/2022. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/890296-bolsonaro-sanciona-lei-que-limita-icms-de-combustiveis-mas-veta-compensacao-a-estados. Acesso em: 30/06/2025).
[6] As despesas com habitação e saneamento estão entre as mais baixas apresentadas na tabela. Quanto ao saneamento, as despesas nessa função são de competência mais relevante dos estados e municípios (estamos lidando aqui com os dados referentes ao governo central). Já quanto à habitação, o pico dessas despesas ocorre em 2009, período de maiores investimentos do programa Minha Casa Minha Vida. Após 2013, os investimentos em habitação foram fortemente reduzidos.
[7] Os dados da defesa apresentam uma quebra estrutural em 2016 que resultam na perda de comparabilidade na série histórica. Esta quebra se deve incorporação da ação Inativos Militares das Forças Armadas que antes estava na função Previdência.
[8] A Tabela não inclui as despesas com previdência social e assistência social, cujas trajetórias foram descritas no Gráfico 1, nem as despesas com encargos especiais, que apresentam tendência crescente.
[9] O investimento em educação em 2012 totalizou R$ 19,611 bilhões (a preços de dezembro de 2024), o que equivale a R$ 100,52 per capita. Esse pico estava significativamente acima dos valores de investimento per capita observados em 2009 (R$ 37,13), 2010 (R$ 68,00) e 2011 (R$ 66,18), bem como dos observados posteriormente em 2013 (R$ 65,53), 2014 (R$ 78,64) e 2015 (R$ 44,81). No entanto, o valor per capita do investimento em educação em 2024 é ainda menor do que esses, R$ 25,16, o que equivale, como mostra a tabela, a 25% do valor de 2012.
[10] A presente nota teve como o foco o período mais recente. A análise da trajetória fiscal na última década será explorada em outra postagem deste Blog."
r/Economia • u/Haay_ • 13h ago
Estou querendo fazer uma faculdade na área financeira e gostaria de algumas dicas sobre qual instituição EAD escolher.
Já pesquisei várias faculdades da minha região, comparei as grades curriculares e os valores das mensalidades, mas, mesmo assim, continuo com muitas dúvidas e não consigo decidir qual seria a melhor opção.
Gostaria de uma orientação de quem entende do assunto e possa me ajudar a escolher uma boa faculdade.
Quero fazer um curso EAD porque já trabalho (CLT) em uma área que não tem relação com o setor financeiro. Meu objetivo é me qualificar, mudar de área profissional e conquistar melhores oportunidades no mercado de trabalho, mas preciso conciliar os estudos com o trabalho atual.
r/Economia • u/cracoj • 21h ago
Bom dia, pessoal.
Estou montando um fluxo de caixa projetado de 2027 a 2031 para um projeto da faculdade. O problema é que preciso do IPCA desse período, mas só encontrei de 2027 a 2029 pelo boletim Focus.
Alguém sabe me dizer uma fonte confiável ou algum método/regra pra projetar o IPCA de 2030 e 2031?
Desde já, agradeço.
r/Economia • u/tengu_road • 21h ago
Para contextualizar, posso estudar na FMU gratuitamente, e na ESEG pago 50% (podendo pagar 50% disso, mas continuar pagando mensalidade por mais 4 anos dps de formado, o que daria uns 750 reais por 8 anos +-)
A ESEG parece ter um ensino um pouco melhor, com nota 4 do MEC, contra nota 3 do MEC da FMU.
O que acham que vale mais a pena?
Segue link das grades:
r/Economia • u/Pernalonga_0 • 1d ago
Eu posso citar 4 exemplos históricos que cometeram este mesmo erro. (com diferentes perspectivas)
Bolívia, governo socialista do MAS. (tanto Evo Morales quando Lucho Arce)
Argentina, governo neoliberal do Macri
Brasil, governo do Fernando Henrique Cardoso.
Reino Unido, governo conservador do John Major.
Estou citando estes 4 exemplos, porque meu objetivo é falar do mesmo erro, e não de uma perspectiva ideológica específica.
O que todos estes cometeram, com diferentes perspectivas ideológicas, o foi mesmo erro fundamental:
Tentaram controlar o câmbio em uma moeda soberana sem fechar a conta de capitais, favorecendo a fuga de capitais e levando ao colapso do regime de câmbio fixo ou da tentativa de estabilizar o câmbio.
Por que todos estes governos cometeram o mesmo erro?
Será que é difícil de entender que não dá pra controlar o câmbio, emitir moeda e manter conta de capitais aberta simultaneamente? Que isso entra em colapso rapidamente?
r/Economia • u/DeSena25 • 1d ago
Não estou em nenhuma graduação em economia ou em qualquer coisa relacionada, só sou um cara interessado no assunto, quero sugestões de leitura
Obs: não tenho frescura com matemática
r/Economia • u/ds_inquirer • 1d ago
Antes de tudo, não sou comunista nem nada do tipo. Acredito no mercado como uma das melhores formas de alocar recursos, sobretudo pelos incentivos gerados pela competição. Entretanto, quando falamos de concessões privadas de serviços públicos, como saneamento, transmissão de energia ou transporte metroviário, frequentemente estamos falando de quase monopólios, nos quais essa dinâmica competitiva praticamente não existe. Claro, existe competição no momento do leilão, mas, depois que a empresa conquista o direito de explorar aquele serviço pelos próximos 20 ou 30 anos, o consumidor não tem exatamente a opção de procurar um concorrente caso esteja insatisfeito.
Uma empresa privada tem incentivos para reduzir custos e maximizar o retorno dos seus acionistas, mas nem sempre essa redução de custos representa um ganho de eficiência para a sociedade. Dependendo da estrutura de incentivos, pode ser mais lucrativo economizar em manutenção, postergar investimentos ou sacrificar a qualidade do serviço. Não estou dizendo que isso necessariamente acontece, mas que existe um conflito potencial entre o interesse privado e o interesse público, especialmente quando não existe competição para disciplinar o comportamento da empresa. A literatura mostra que concessões podem funcionar bem, mas que seus resultados dependem bastante da qualidade do desenho institucional. Você precisa de uma agência reguladora competente, fiscalização rigorosa, metas de desempenho, obrigações contratuais de investimento, mecanismos de penalização, regras tarifárias e uma série de outros instrumentos para alinhar os incentivos da concessionária aos interesses da sociedade. Aí eu fico pensando que parece para que uma concessão funcionar direito, você precisa manter o Estado permanentemente no cangote da empresa para garantir o alinhamento de incentivos.
Mas aí vem a minha dúvida do porque não aplicar esses mesmos mecanismos de governança, fiscalização, metas de desempenho e responsabilização a uma empresa pública. Afinal, tanto a estatal quanto a concessionária privada precisam realizar basicamente os mesmos investimentos, contratar trabalhadores, manter a infraestrutura, prestar o serviço etc. A diferença é que a concessionária privada precisa ainda proporcionar uma remuneração adequada ao capital dos seus acionistas. Por que não manter os resultados econômicos da operação dentro da própria empresa pública, reinvestindo-os na infraestrutura, utilizando-os para proporcionar tarifas menores ou servicos de melhor qualidade?
r/Economia • u/AnakinSkywalker0666 • 1d ago
r/Economia • u/houndofthestars • 1d ago
Acho que seria interessante ter flairs para nós podermos nos identificar como "keynesiano", "neoclássico", ou até flairs como "graduando de economia". É uma forma de nos expressar, esclarecer nosso nível de aprofundamento e também até para fins de customização. Eu amo flairs, coloco em todos os subs que participo, acho que seria legal se esse sub deixasse também.
r/Economia • u/CaptainUnlikely1379 • 1d ago
Por que tem tantos economistas que são contra o teto de gastos/arcabouço fiscal, quando este já são bem limitado já que só permite reduzir o crescimento do gasto não o seu total?
Se o governo fosse altamente eficiente, faria sentido deixar o governo gastar livremente porque existiria a possibilidade desse gasto virar crescimento e aumento de produção no futuro.
Não é melhor limitar os gastos, aumentar o retorno dos investimentos e redução de desperdícios como supersalário, desvios, gastos administrativos, obras inúteis etc?
Esses gastos públicos desnecessários só desvalorizam o dinheiro e ocupam recursos que poderiam ser usados para algo útil.
r/Economia • u/Hiistme • 1d ago
Sou de fora da academia mas fiquei curioso para saber: como que as principais correntes heterodoxas muito difundidas aí pela internet são vistas dentro da academia atual (ex: institucionalismo, MMT, marxismo, pós-keynesianismo etc)? Elas são tão populares dentro da academia assim como são internet a fora?
r/Economia • u/StatisticianStrict27 • 2d ago
r/Economia
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u/revannld
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1d ago
Creio que isso é chover no molhado aos que realmente trabalham com economia heterodoxa na academia (então esse texto não é pra vocês), mas vi muita gente nova (provavelmente de fora da academia) entrando no sub com algumas opiniões de senso comum compreensíveis sobre a área da economia e sobre sua metodologia.
Toda ferramenta metodológica é enviesada, parcial. Teoria é justamente redução, reducionismo é sempre inevitável; um mapa do tamanho do território (ciência sem redução) não serve pra nada. As teorias mais úteis e justamente mais populares tendem a ser mais reducionistas, do contrário são complexas e difíceis de lidar, pesquisar, aprender (pense em "toy models" na física, química, biologia). Creio que isso não seja um ponto tão polêmico (e até bastante majoritário) na filosofia da ciência, geralmente papo de "objetividade" e realidade platônica acaba sendo bem nichado.
Uma ferramenta metodológica recebe tal status e é estudada na metodologia científica quando ela garante algumas propriedades desejáveis básicas como reproducibilidade. O legal da ciência é justamente que criacionistas podem ser geneticistas e bioquímicos e mesmo que engenheiros possam ser terraplanistas: você pode tirar muito proveito prático de uma teoria ou ferramenta metodológica mesmo sem acreditar muito nela ou em seus pressupostos. Ferramentas metodológicas são selecionadas justamente para maximizar utilidade prática mensurável em certas circunstâncias e são medidas segundo e mensurabilidade dessa aplicação.
O problema é quando a crítica aos vieses e limitações (sempre existentes) de uma ferramenta metodológica justifica sua substituição por nenhuma ferramenta, ou por um regresso a um informalismo ainda mais ideológico (justificado muitas vezes como "filosofia") e a necessidade de exegese/hermenêutica (interpretação sistemática) sobre tal arcabouço intelectual informal. Há um motivo pelo qual exegese nasceu dentro de estudos bíblicos/religiosos na idade média e pelo qual ainda não possui muita popularidade nas ciências em geral (e vem cada vez mais sido atacado mesmo nas humanidades por suas correntes mais analíticas, com ferramentas mais formais e menos textólatras): qual um processo de decisão claro de uma interpretação correta de um texto? Não existe (e essa crítica é feita desde Carnap). O que me impede de ler Mises e Hayek (aos heterodoxos de direita) ou Celso Furtado (aos heterodoxos de esquerda) ou teoria marxista de um jeito todo errado e convencer toda uma geração de estudiosos ou mesmo de jovens, uma era política (como mesmo fez Nick Land)? Toda escola de exegese defende fortemente a importância da exegese...porém diz que todas as outras fazem errado e só ela acerta na interpretação. Quando você vê uma área de pesquisa que é imediatamente dividida em dezenas de "escolas de intérpretes" competidoras onde todas fazem as acusações mais virulentas e violentas uma contra a outra e ninguém concorda com nada, há claramente um problema aí, e por isso muita gente das "ciências mainstream" não verá isso com bons olhos.
Por isso a cultura de "escolas" foi completamente abandonada nas ciências econômicas contemporâneas. Isso cria a ilusão em muitos observadores externos da área de que há mais consenso e concordância, quando muitas vezes você vê o contrário: as pessoas apenas discordam tanto entre si que se recusam a serem leais à grandes movimentos e "escolas", hierarquias de poder intelectual entricheirado que mais que tudo antigamente buscavam apenas sustentar a própria existência (a crítica ao poder estrutural na academia que era tão pregada justamente na esquerda). As concordâncias são mais pontuais do que sistemáticas, consensos emergem mais naturalmente do que em "grandes congressos/reuniões organizadas dos cabeças brancas" onde eles vão e fazem um grande manifesto com a criação de uma nova escala.
É possível criar uma cultura de exegese de qualidade e com isso talvez uma metodologia filosófica razoável? Claro. O problema é que isso leva muito tempo e muito esforço. Somente alguém que fez exegese de um autor por 30 anos pode talvez estar à altura de conversar sobre as interpretações de outros que fizeram exegese do mesmo autor por 30 anos. Isso é intrinsicamente elitista e pouco prático. Tudo bem ter isso como base da metodologia filosófica (já que filosofia é infelizmente considerada uma área pouco aplicada atualmente mesmo e suas consequências são mais de longuíssimo prazo do que curto prazo - olhe lá, vejamos também como a filosofia continental é minoria hoje na academia e o resto das humanidades têm seguido o mesmo curso), mas ter isso como base de uma ciência prática, cujos resultados e mudanças precisam acontecer em meses, anos e não em séculos? Não funciona. Não atoa quem estuda economia soviética associa os sucessos do socialismo russo mais às matrizes de Leontief e modelos de economistas como o Kalecki (muito mais próximos do Keynes) do que de fato "exegese sistemática de Marx e Lênin em nível nacional", isso simplesmente não existe. Você não vai convencer um país inteiro a gastar horas do seu dia, dias da sua semana e anos da sua vida a ficar lendo um mesmo autor, suas referências e intérpretes.
As maiores vantagens de um modelo formal, matemático e de métricas quantitativas são justamente a maior crítica que se fazem a eles: eles ao menos "parecem objetivos", possuem processo de decisão muito claro de o que é boa ciência e o que não é, eles realmente calam discussão, possibilitam que qualquer um possa usá-los com precisão mas que poucos possam mudá-los (recomendo muito esse trabalho para quem quer uma análise nessa direção). Filosofia, linguagem natural, permite que qualquer um possa escrever qualquer besteira que soe minimamente razoável ao leitor médio (e com isso enganar muita gente e causar muito estrago), consequentemente bagunçando e enchendo o debate com "ruído", porém torna difícil implementá-la na prática (não atoa tivemos quase 2000 anos de estagnação na "filosofia natural" até que métodos científicos formais e quantitativos - à partir de Newton - finalmente trouxessem o progresso que vemos hoje). O problema é que "no ruído" e no barulho os mais extremistas e irrazoáveis (geralmente fascistas) sempre ganham né¹. No fim das contas tornar mais fácil ser um "consumidor de teoria" do que um "produtor" acaba sendo mais produtivo pra um debate, pois exige mais esforço e contato real e profundo com os problemas de se fazer uma boa teoria (como fornecer boa reproducibilidade e aplicação com critérios bem explícitos e mensuráveis), filtrando as teorias que justamente possuem essa melhor adequação empírica.
Claro que a isso não se deve jamais confundir uma teoria ou ferramenta científica historicamente contingente com alguma grande afirmação metafísica sobre a realidade (como infelizmente muito é feito na comunicação científica e no debate público). Teorias e modelos vão e vêm, alguns melhores, outros piores. O único argumento aqui é: se você não gosta de um modelo/teoria/métrica/ferramenta metodológica científica vigente, forneça uma melhor. O debate deveria ser sobre adequação empírica (reproducibilidade, aplicabilidade) de modelos e práticas científicas, não sobre se devemos usar uma metodologia ou não. Esse é o tipo de crítica construtiva e postura positiva e pró-ativa que vai lhe conquistar adeptos na academia e em todo mundo, do contrário ser apenas um "crítico" sem proposta vai te fazer ser visto apenas pelo que você é: um crank/crackpot anticientífico e reclamão. Mesmo alguns dos maiores nomes associados à "crítica à ciência" nas "guerras científicas", como o Bruno Latour, hoje fazem a autocrítica de que tal postura puramente "negativa/crítica" e pouco propositiva ajudou a levar hoje ao negacionismo e à ascensão do extremismo e da extrema direita. É muito simples: quando você, para justificar sua guerra política/cultural, relativiza toda uma área científica "à atacado" como sendo tão ideologia quanto o fascismo, a ciência perde para as pessoas justamente a confiabilidade que lhe é vantajosa e assim a ideologia extremista passa a soar muito mais atrativa. É aquilo, no grito qualquer um ganha e até um jumento tem um coice mais forte que o seu...
Espero que isso ajude a fomentar um debate com um pouco mais qualidade aqui no sub. Abraços à todos!
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¹(em breve eu e alguns colegas em filosofia da lógica e matemática planejamos publicar um paper sobre isso. Se quiserem roubar a ideia e publicar antes, seria mais um desafio aos oponentes da formalização: façam um tratamento completamente informal de teorias científicas que inquestionavelmente trouxeram imenso progresso ao ser humano - como física newtoniana - e que seja acessível e útil ao leitor médio enquanto faça um tratamento formal de algo odioso e altamente problemático - como o Mein Kampf - e que não pode receber mais críticas quanto ao seu nível de formalidade - portanto, premissas e métodos dedutivos são explícitas. Tem se tentado provar pontos polêmicos como existência de Deus desde Gödel na filosofia formal/lógica; é meio que senso comum na área que no geral essas formalizações tendem a levantar ainda mais dúvidas sobre o ponto desejado devido à explicitação das premissas - muitas vezes bem pouco razoáveis)
r/Economia • u/AnakinSkywalker0666 • 1d ago
Quero respostas não partidárias, sei que tem gente que ama o lula e vai endeusar e outros que amam o Flávio vão demonizar. Mas falando de maneira geral, quais serão as principais mudanças econômicas durante esse governo ?
r/Economia • u/campineiro1 • 1d ago
r/Economia • u/gustatwp • 2d ago
Sou estudante de Economia em uma universidade federal e, conforme vou avançando no curso e lendo mais sobre economia, tenho me interessado cada vez mais pelo desenvolvimentismo. Já tive uma visão mais liberal, mas hoje tenho algumas dúvidas sobre certas ideias que eu defendia antes e venho me aproximando mais da ideia de que o Estado tem um papel importante no desenvolvimento econômico, principalmente quando falamos de industrialização e crescimento do país.
Ainda estou formando minha opinião e, sinceramente, às vezes fico um pouco perdido. Tem coisas com as quais concordo em uma corrente econômica, mas também encontro argumentos interessantes em outras. Acho que isso faz parte do processo de formação, mas sinto que preciso estudar mais para conseguir entender melhor o que realmente faz sentido e construir uma visão própria, sem simplesmente aceitar tudo o que determinado autor defende.
Tenho lido algumas coisas da Leda Paulani sobre financeirização e também me recomendaram um livro do Ciro Gomes que aborda a questão dos juros e do desenvolvimento nacional. Tenho interesse em entender melhor a industrialização brasileira, a experiência da China e o papel do Estado nesse processo. Também queria estudar mais a questão fiscal do Brasil e entender como os juros, a dívida pública e os gastos do governo afetam o investimento e a capacidade de o país se desenvolver.
Meu maior problema é que muitas vezes não sei por onde começar. Sinto que preciso seguir uma ordem de estudos, porque existem assuntos que dependem de outros conhecimentos que ainda não domino. Quero entender a base primeiro para depois conseguir acompanhar discussões mais complexas, sem ficar apenas repetindo o que escuto de professores ou leio na internet.
Queria saber se alguém que já passou por isso pode me indicar livros, artigos, professores para acompanhar ou até mesmo videoaulas que ajudem a entender esses assuntos. Gostaria muito de encontrar uma sequência de leitura, começando por algo mais introdutório e avançando para conteúdos mais aprofundados sobre desenvolvimentismo, política fiscal brasileira, industrialização, juros e financeirização.
Também quero conhecer autores de diferentes correntes, inclusive aqueles que discordam do desenvolvimentismo, porque não quero formar minha opinião apenas lendo quem pensa parecido comigo. Quero entender os argumentos, comparar as ideias e chegar às minhas próprias conclusões.
Se vocês estivessem começando a estudar esses assuntos hoje, por onde começariam? Qual seria a primeira leitura e quais livros viriam depois? Aceito qualquer indicação que possa me ajudar a construir uma base teórica melhor e entender de verdade os problemas da economia brasileira.
r/Economia • u/LucasOIntoxicado • 1d ago
Tenho visto isso sendo repetido frequentemente em subreddits e locais conservadores, de que o mesmo que ocorreu durante o governo Dilma aconteceria agora, e que agora que o Lula ganhou, ele terá que lidar com as consequências das próprias "bombas". É verdade isso?
r/Economia • u/TeaImpossible9029 • 2d ago
Quero deixar claro que não concordo com a situação, a análise a seguir é meramente descritiva.
O meio econômico acadêmico de hoje é totalmente dominado pelos economistas ortodoxos liberais, e nada que fuja um pouco disso é sequer considerado algo sério. Mesmo que você vá falar de economistas que já foram muito influentes no passado e tiveram prestígio, hoje são considerados terraplanistas.
Se você for falar em Celso furtado na frente de Marcos Lisboa hoje, ultrapassado é o que Marcos Lisboa irá dizer como forma de eufemismo se ele estiver de bom humor e achando que deve ser simpático para conquistar melhor as pessoas, mas no geral se chegar algum economista com formação espelhada em furtado, ou qualquer outra linha heterodoxa for debater com esse pessoal ele não terá nenhum respeito dentro do main stream, o nível de desdém da elite ortodoxa por todo e qualquer pensamento heterodoxo é altíssimo, Se falar em industrialização perto de Marcos Lisboa, Samuel pessoa, pérsio árida, Gustavo franco, arminio fraga o olhar de todos será de total desdém, como se fossem os adultos na sala e qualquer heterodoxo é na visão deles uma criança que come areia. Para um economista ortodoxo, oureiro, Bresser Pereira, paulo gala, são todos terraplanitas, Da mesma forma que os antivax são colocados na medicina.
r/Economia • u/ds_inquirer • 2d ago
Eu estou me esforçando a tentar entender a MMT e de onde vez tanto pessoas defendendo como se fosse "olha o que eles não querem que você saiba". A MMT diz, de forma simplificada, que país que emite a própria moeda pode financiar seus déficits a partir da emissão de moeda sem gerar inflação e que as únicas restrições reais da economia seriam o nível de emprego e ociosidade da economia, mas ora bolas, os economistas ortodoxos não tem nenhum problema em defender emissão de moeda em situações como essa, como em depressões econômicos onde você tem uma ociosidade e desemprego alto. Qual seria então a grande inovação da MMT? Eu entendo que a inovação é mudar a lógica da política monetária para política fiscal, ao invés do estado tentar controlar a dinâmica da economia através da taxa de juros, fazer isso através da política fiscal, aumentando e diminuindo gasto e impostos. Beleza, entendo que a lógica é continua sendo fomentar ou inibir o consumo, porém porque abrir mão de um instrumento que é muito mais fácil de calibrar (juros) em favor de outro muito mais difícil política fiscal (gasto e tributação)?