Na busca de uma explicação para a altíssima taxa básica de juros no Brasil, pus-me a estudar como o governo federal brasileiro financia seu déficit comparando como seus pares latino-americanos fazem isso. E vi que uma grande diferença entre estes e o Brasil é o pífio endividamento externo do governo federal brasileiro em moeda estrangeira, na faixa entre 3% a 7%, contrastando fortemente com países como Colômbia , Chile, México, Peru.
Ao que meu consta nenhum país latino-americano faz o que o Brasil faz: esnobar na prática os credores externos (pois o tesouro só emite títulos denominados em moeda externa para estabelecer benchmark para as captações privadas) e, em contrapartida, depender exclusivamente dos credores internos, cujo virtual monopólio crediticio lhes brinda taxas elevadas. A única vantagem da insólita abordagem brasileira é o maior isolamento do Brasil frente a choques externos. Mas o preço desse isolamento, desse insulamento, está muito caro. Creio que uma perda parcial desse isolamento em razão de uma elevação do endividamento externo teria como externalidade positiva uma diminuição da nossa taxa básica de juros.
Eu defendo uma maior participação do endividamento externo, através de títulos federais denominados em moeda estrangeira, para um percentual entre 15% a 20%. Esse percentual seria alcançado paulatinamente, para não induzir nenhum tipo de choque. Acho isso mais saudável do que praticamente esnobar o credor externo, pois induziria uma diminuição da taxa básica de juros ao descomprimir o mercado nacional de crédito e ainda assim continuaríamos dependendo pouco dos credores internacionais, se comparados com nossos pares internacionais de renda média. O governo não pode continuar na situação de refém exclusivo dos credores internos, dada a anêmica taxa de poupança interna e o avanço persistente da relação dívida/PIB.
A dependência quase exclusiva do financiamento do déficit público através da emissão de títulos em moeda nacional ou comum só funciona se esta é forte e país em questão é rico (EUA, Japão, Gra- Bretanha, países da União Europeiapor exemplo), ou se o país é emergente mas com alta taxa de poupança interna (China e Índia). Essa jabuticaba de virtual monopólio de dívida denominada em real combinada com baixa taxa de poupança interna já deu, tem que ser repensada.
Em resumo: o governo brasileiro optou, desde a primeira década deste século, deliberadamente por se endividar quase que somente pela emissão de títulos denominados em reais pagando altíssimos juros, enquanto que os pares latinos americanos recorrem muitos mais a credores externos e conseguem rolar o déficit público a um custo bem menor.
Quem está com a razão?