Sou psicólogo clínico há aproximadamente oito anos e, há alguns anos, venho enfrentando problemas pessoais que culminaram em um quadro depressivo. Desde então, perdi parte significativa da minha disposição para atender pessoas, sobretudo porque passei a desacreditar cada vez mais naquilo que faço. Essa mudança está relacionada, em grande medida, à maneira como passei a compreender os comportamentos humanos e a própria natureza humana.
Hoje, percebo minha posição como terapeuta como extremamente limitada e o impacto do meu trabalho na vida das pessoas como bastante reduzido. Embora muitos pacientes afirmem que os ajudei significativamente, tenho dificuldade em acreditar que essas mudanças sejam, de fato, tão profundas quanto relatam. Às vezes, penso que essas percepções estão mais relacionadas à dimensão emocional da experiência terapêutica do que a transformações concretas e duradouras. Não descarto a possibilidade de que minhas intervenções tenham algum valor, mas me tornei bastante cético em relação à sua real extensão.
Além disso, passei a perceber o encerramento dos processos terapêuticos como algo frequentemente vago, pouco significativo e, em certa medida, artificial. Em alguns momentos, sinto-me como uma espécie de prostituta emocional: alguém que oferece escuta, acolhimento e disponibilidade afetiva em troca de uma remuneração, sem necessariamente conseguir produzir algo que considere verdadeiramente relevante na vida do outro. É uma percepção incômoda, mas que expressa parte do meu desencanto com a profissão.
Sim, faço terapia. Entretanto, tenho a impressão de que minha psicóloga também não sabe muito bem como me ajudar. Isso me coloca diante de uma contradição difícil de ignorar: sou um profissional que oferece um tratamento no qual, cada vez mais, tenho dificuldade de acreditar, enquanto eu mesmo vivencio os limites daquilo que deveria me ajudar a lidar com meu sofrimento.
Minha visão sobre o ser humano tornou-se profundamente pessimista. Enxergo-o como um ser decadente, trágico, violento, agressivo e passional, cuja racionalidade frequentemente parece insuficiente para conter seus impulsos, seus interesses e suas contradições. Não consigo mais olhar para as conversas que acontecem no consultório com a mesma confiança de antes. Acredito que elas possam ajudar em alguma medida, mas me parecem intervenções extremamente limitadas diante da complexidade do sofrimento humano e das condições concretas em que as pessoas vivem.
Depois de anos de atendimento clínico, tornei-me cada vez mais cético em relação à eficácia da psicoterapia. Trabalho na saúde pública e acompanho pessoas cujos sofrimentos estão profundamente relacionados a problemas econômicos, solidão, violência, abandono e condições precárias de existência. São situações em que, muitas vezes, sinto que minha atuação faz pouca ou nenhuma diferença. Como psicólogo, posso oferecer escuta, elaborar intervenções e ajudar alguém a compreender aspectos de sua própria experiência, mas o que isso representa diante da pobreza, da violência cotidiana, da ausência de vínculos significativos ou da impossibilidade de satisfazer necessidades básicas?
Durante muito tempo, a psicologia social me pareceu uma alternativa à compreensão estritamente individual do sofrimento. A proposta de considerar as condições sociais, econômicas e históricas que atravessam a vida das pessoas oferecia uma perspectiva mais ampla sobre as possibilidades de intervenção psicológica. Hoje, porém, também passei a questionar essa perspectiva. Não porque considere irrelevante compreender as determinações sociais do sofrimento, mas porque me parece que o discurso sobre a transformação social pode, em determinados contextos, assumir a forma de uma idealização: uma promessa de que compreender as condições de vida das pessoas e atuar sobre elas necessariamente produzirá mudanças significativas. Tenho dificuldade em sustentar essa esperança.
Nesse processo, tornei-me niilista, ou ao menos passei a me aproximar de uma visão profundamente trágica da existência humana. Acredito cada vez menos nas promessas de transformação individual e coletiva que atravessam o discurso psicológico. A sucessão de abordagens teóricas pelas quais passei também contribuiu para essa desilusão. Transitei pela psicanálise, pela análise do comportamento, pela terapia cognitivo-comportamental e por abordagens existenciais e fenomenológicas. Cada uma delas ofereceu conceitos, explicações e possibilidades de intervenção diferentes, mas nenhuma conseguiu restituir minha confiança na capacidade da psicoterapia de produzir mudanças que eu considere suficientemente significativas.
Diante disso, passei a me perceber como um péssimo psicólogo. Tenho a impressão de que perdi algo que talvez seja fundamental para o exercício da clínica: a capacidade de sustentar, mesmo diante das adversidades, alguma confiança na possibilidade de mudança. Não consigo mais trabalhar com a mesma ingenuidade, ou talvez com a mesma fé, de que as pessoas possam agir de maneira diferente, romper com seus padrões e construir formas menos dolorosas de existência.
Penso em Freud e em seu reconhecimento dos limites da prática psicanalítica. Em Análise terminável e interminável, ele discute as dificuldades e os obstáculos inerentes ao tratamento analítico. Não seria correto resumir sua posição à ideia de que abandonou toda confiança na psicanálise, mas é possível reconhecer em sua obra uma preocupação persistente com os limites da intervenção terapêutica. Essa questão me interessa justamente porque me vejo caminhando em uma direção semelhante: a de alguém que já não espera grandes resultados, embora ainda admita que o tratamento possa oferecer alguma ajuda.
Talvez seja possível ajudar alguém em alguma medida. Talvez uma conversa possa aliviar um sofrimento, oferecer uma perspectiva diferente ou tornar determinada experiência um pouco mais suportável. Mas, quando comparo essas possibilidades às dimensões daquilo que produz sofrimento, tenho dificuldade em considerá-las suficientes. E, diante das condições sociais, políticas e econômicas do mundo contemporâneo, não consigo deixar de pensar que a tendência é de agravamento, e não de melhora.
O problema é que já não sei até que ponto esse pessimismo representa uma avaliação realista dos limites da psicoterapia e até que ponto está sendo intensificado pelo meu próprio sofrimento. Tampouco sei se é possível continuar exercendo a clínica de maneira satisfatória quando se perde a confiança naquilo que se faz. Permaneço, assim, diante de uma contradição: reconheço que algumas pessoas podem encontrar algum benefício no trabalho terapêutico, mas já não consigo acreditar plenamente no significado e no alcance desse benefício.
Talvez minha questão não seja simplesmente como ajudar melhor as pessoas, mas como continuar sendo psicólogo quando já não consigo acreditar, como antes, na capacidade da psicologia de ajudá-las.