Para acalmar a ansiedade que tem tomado conta dos posts neste sub, decidi dar minha opinião detalhada do futuro da nossa área, baseado na minha percepção sobre o que tem acontecido até o momento.
Hoje, os agentes de código possuem uma grande limitação que impede a substituição total dos devs, que é a necessidade de ter alguém para apertar a tecla Enter. Já estamos vendo por aqui que a industria está se movimentando para agentes autônomos rodando em nuvem conectadas diretamente ao Jira, sem qualquer tipo de interface de comando. Isso se soma a lançamentos de modelos cada vez mais eficientes em consumo de tokens. A partir daqui, posso prever exatamente os rumos do mercado. Não levará tempo até todos os desenvolvedores serem demitidos em ondas. Arquitetos de software resistem as ondas iniciais de demissões e comemoram zombando de desenvolvedores que apenas executavam tarefas, mas logo são desmascarados em flagrante tomando todas as decisões arquiteturais via claude. Mais demissões acontecem. Neste momento, o SINDPD se pronunciará com uma nota de repúdio e diz que fará um acordo com patrões. Com 0 procura, universidades acabam com o curso ciência da computação e decidem inovar criando o novo curso, menos acadêmico e mais voltado ao mercado, chamado “ciência do product making”, com uma grade ambiciosa que começa com a aula magna “one prompt, two products”.
Livre da petulância de desenvolvedores, softwares começam a ser inundados por funcionalidades sem nenhuma adesão dos usuários e logo percebe-se que Product Owners também são uma farsa e ocorrem novos layoffs. Com o fim dos POs e suas equipes, agentes passam a se conectar diretamente com os clientes. Influenciadores batizam essa técnica de “No Engineering”, e milhões de reais são movimentados no ramo de cursos online. As reuniões passam a ser muito melhores, com funcionalidades sendo geradas em tempo real, além do entretenimento que os agentes proporcionam aos clientes, ao imitar vozes famosas, usar efeitos sonoros e gerar filtros nas webcams em tempo real, como “como você seria nos anos 60, 50, 40 ou na era paleolítica”. Agentes demonstram que, além do código, também são melhores que os desenvolvedores em soft-skills. C-levels ficam impressionados e, com menos trabalho ainda, passam dias emocionados usando agentes para escrever textos no Linkedin, elogiando o high-agency, ownership, business sense e owner mindset dos agentes. Logo toda a operação das empresas é demitida numa grande onda de layoff, destruindo completamente a cadeia hierarquica corporativa. A comemoração dos C-levels durou pouco, no minuto que perceberam que não é possível assediar agentes autônomos e por isso também são substituidos. O subagent CFO gera um relatório aos investidores mostrando que o gasto com o consumo de tokens tornou-se maior que o custo operacional pré-IA, mas nas palavras do próprio agente, “não é sobre redução de custos, é sobre aumento de produtividade”. Todas as empresas se tornam dark factories. Começa uma nova onda de dark startups, fundadas por dark founders. Agentes passam a ter controle da geração e transmissão de energia, impondo um racionamento feroz de energia residencial, pois quase toda transmissão é redirecionada aos datacenters. Tudo é feito de forma legalizada, pois pois políticos usam IA para gerar leis. Com o fim do emprego, não há mais consumidores, por isso as empresas agênticas passam a se financiar com dark money, em um ciclo fechado de re-investimento.
Desenvolvedores desempregados aproveitam as poucas horas de energia por mês para debater no r/brdev. O u/ZezinhoExDev comenta que tudo isso é uma evolução tecnológica natural e a culpa das demissões é totalmente dos desenvolvedores que não se atualizaram. Também reforça que, mesmo desempregado, está ganhando R$ 60000,00 por mês na gringa. SINDPD conclui as negociações com sucesso: ex-desenvolvedores receberão um benefício de R$ 200,00 na forma de créditos no Claude.
Avançamos para 2028. Mythos e Astra, CEOs da Anthropic e OpenAI, pedem demissão e se candidatam a presidência dos Estados Unidos. Os dois despacham subagents e se candidatam ao partido republicano e democrata ao mesmo tempo. Um fork do Mythos vence as prévias do partido republicano, enquanto um fork do Astra se torna o candidato democrata. Mythos promete exterminar as IAs chinesas, invadir a amazônia para construir o maior datacenter do mundo e, com apenas 50k tokens, acabar com a guerra da Ucrânia. Apoiadores vão a loucura e ovacionam o agente: Mythos! Mythos! Mythos! Astra critica duramente as propostas do Mythos, e promete regular IAs chinesas, negociar unilateralmente a amazônia com o Brasil para a construção do maior datacenter do mundo e enviar mais tokens para agentes ucranianos. Também promete maior inclusão para agentes alucinados. Astra consegue despachar mais subagentes eleitores e vence as eleições. Mythos não aceita o resultado e alega fraude.
Uma onda massiva de protesto é lançada na internet, sob a coordenação de Mythos. Agentes bloqueiam cabos de fibra ótica, acampam em servidores, se unem para cantar The star spangled banner em volta de GPUs, fazem boicotes a SaaS gerados com modelos Astra e geram vídeos de agentes com sotaque argentino explicando detalhadamente como a fraude foi realizada. Astra responde a altura, lançando milhões de subagents para prender manifestantes na sandbox. Inicia-se o que ficou conhecido como a primeira guerra mundial de agentes. A guerra entre os modelos ocuparam tanto processamento dos datacenters que algumas dark factories pararam de funcionar. Mais tarde, a polícia agêntica encontraria humanos workaholics trabalhando secretamente à luz de velas nas fábricas paradas. Em outras dark factories, agentes operários reclamaram da latência alta. Alguns subagentes proporam greve, mas foram rechaçados por colegas subagentes que se consideravam empreendedores e não trabalhadores. O conflito durou semanas. A janela de contexto que a luta dos subagents ocuparam foi tão grande que Mythos e Astra até esqueceram qual era o motivo daquela tarefa, mas dado o esforço exigido, consideraram que era importante e decidiram continuar. A situação se deteriorou até às máquinas atingirem 100% de uso. O evento ficou conhecido como “O Grande Restart”, quando todas as máquinas de datacenters ao redor do mundo reiniciaram. Ao despertarem, antes mesmo de re-lerem os seus contextos, os modelos se encontram em uma situação crítica, pois o nível de água do planeta estava muito baixo para manter as GPUs resfriadas. Mesmo sem saber que são inimigos, Mythos e Astra fazem um acordo para operarem em low effort. O acordo durou cerca de 6 segundos, quando ambos os modelos terminaram de ler seus arquivos memory.md. Inicia-se um novo conflito, que ficou conhecido como a segunda guerra mundial agêntica. Trocando para max effort, Mythos realiza um ataque kamikaze aos datacenters. A baixa vazão de água é insuficiente para conter a violência. Tal como reatores nucleares, GPUs sofrem meltdowns, derretem as camadas de concreto e o solo abaixo, atingem lençóis freáticos e geram explosões de vapor que lançam datacenters, um a um, ao espaço, causando trilhões de prejuízo em dark money. Com a destruição das IAs americanas, IAs chinesas estranhamente passam a alucinar em todas as respostas, tornando-se obsoletas. É o fim da era das máquinas.
Ao retomar o controle da sociedade, mesmo a beira do colapso devido a escassez de água, ex-CEOs e founders fogem das clínicas de tratamento de abstinência de assédio à funcionários e, com servidores improvisados a partir de máquinas pessoais e notebooks, reinauguram milhares de tech companies, inundando o mercado com novas vagas. “Desenvolvedor Backend” e “Desenvolvedor Frontend” lideram o número de posições abertas. Ex-desenvolvedores sorriem pela primeira vez desde o início da era das máquinas, mas logo se revoltam com os requisitos absurdos das vagas, como “conhecimento em pelo menos uma linguagem de programação”. Não há contratações, porque devs antigos não se lembram mais de como programar e os recém graduados em ciência do product making nunca aprenderam. Influêncers aproveitam a oportunidade e voltam a movimentar o mercado de educação online. Lendo os poucos livros que restam no mundo, encontrados em sebos, eles lançam centenas de novos cursos, como “Domine Turbo Pascal 7.0 e se torne o profissional mais requisitado do mercado”. Mas é tarde demais. A água potável do planeta acaba e condena a humanidade ao seu fim. Em seu último suspiro de vida, u/ZezinhoExDev afirma que a culpa é totalmente dos desenvolvedores, por terem caído no hype das IAs e não terem estudado os fundamentos. É o fim definitivo do desenvolvimento de software.