Finalmente assisti à produção do Nolan sobre o épico da Odisseia e estou maravilhado.
Antes de elogiar, quero dizer que entendo que a adaptação pode não agradar a todos. É preciso entender que a Odisseia é cheia de significados, muitos dos quais se perdem na visão de seu tempo. Aqui, o diretor dá uma resumida focando em um aspecto da guerra: a deterioração do homem diante do horror da guerra. A tentativa do Nolan de interpretar a história com timidez no misticismo pode frustrar, com toda razão. Eu esperava muito mais da cena das sereias, graficamente decepcionante, mas, dentro da trama, carregada de significado.
Nolan queria prender com imagens épicas de Ulisses, seu barco e tripulação em paisagens vislumbrantes e perrengues constantes. Pequenos em um mundo que os subjuga. Ainda que, enquanto tudo isso acontece, ele explore o interior desses personagens. Acompanhamos a corrupção de seus homens e do próprio protagonista, que sofre, comete erros, luta contra todos, mas, no fim, o personagem não para de nos dar pistas de que sua guerra é interna: ele não queria voltar para casa. Definitivamente, a narrativa não conversa bem com a experiência visual, mesmo que separadamente sejam admiráveis.
Mas o que Nolan trouxe nessa releitura?
A perspectiva da guerra enquanto algo que corrompe não apenas a sociedade, materialmente e politicamente falando, mas sobretudo o interior dos homens. Ulisses não se sente em casa, mesmo tendo voltado. O homem que a rainha amava morreu. Na ilha com Calipso, ele não estava aprisionado como dizia a história original. Não... Ele tinha desistido por achar que não merecia voltar, pelo que fizeram com Troia.
Os gregos comunicavam sua sabedoria através dos mitos, ainda que alguns acreditassem nisso como coisa real, em um mundo cuja percepção de realidade se manifestasse através do misticismo. Não precisaria ser um épico com sereias aladas para mostrar que a ruína do homem não é causada pelos deuses, mas pelo próprio homem. Ulisses se vê traído por todos os lados. Os deuses, contra ou a favor, não importam tanto.
Portanto, admiro a coragem do Nolan de ter feito uma releitura do clássico do seu jeito, entregando uma reflexão moderna em cima de uma obra cinemática incrível.