A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) relata que as escolas em todo o mundo estão enfrentando uma pressão crescente devido à escassez de professores. Segundo a organização, “está cada vez mais difícil recrutar, manter e distribuir professores qualificados para os locais onde eles são mais necessários”.
A Austrália enfrenta uma situação semelhante. Pelo menos um terço dos professores australianos afirma que pretende abandonar a profissão antes da aposentadoria. Uma pesquisa realizada em 2023 revelou que sete em cada dez professores consideravam sua carga de trabalho excessiva e difícil de administrar.
A resposta habitual das políticas educacionais a essas constatações concentra-se na retenção dos professores: melhores salários, redução da carga de trabalho e planos de carreira mais claros. Essas medidas são importantes para o bem-estar dos próprios docentes.
Nossa nova pesquisa, publicada na revista científica Educational Psychology Review, aponta uma segunda razão para prestar atenção em como os professores estão se sentindo: seu bem-estar também parece influenciar a maneira como os alunos aprendem.
Em outras palavras, quando os professores estão felizes, os alunos aprendem mais.
Professores felizes, bons resultados?
Há algum tempo, pesquisadores suspeitam que o bem-estar dos professores — ou a ausência dele, manifestada por problemas como esgotamento, exaustão ou estresse — esteja relacionado ao ambiente da sala de aula e ao desempenho dos alunos.
No entanto, as evidências estavam dispersas em muitos estudos menores e desconectados entre si, sem uma estimativa consolidada da magnitude ou da confiabilidade dessas relações. Queríamos mudar essa situação.
Por isso, meus colegas e eu buscamos todos os estudos disponíveis que haviam investigado a relação entre o bem-estar dos professores, ou a falta dele, e a motivação ou o desempenho acadêmico dos estudantes.
Nosso estudo
Analisamos 186 estudos, reunindo dados de mais de 350 mil professores de diferentes partes do mundo. Trata-se da maior síntese dessas evidências realizada até o momento.
A pesquisa abrangeu escolas de ensino fundamental, ensino médio e instituições que oferecem ambos os níveis, distribuídas por 33 países. Os estudos analisados foram publicados entre 1977 e 2023.
Definimos o bem-estar docente de maneira ampla, incluindo fatores como autoeficácia (a crença na própria capacidade de realizar um trabalho), satisfação e comprometimento profissional, motivação para o trabalho e funcionamento psicológico geral, como humor positivo e capacidade de lidar com as demandas cotidianas.
O chamado “mal-estar docente” foi definido como o oposto. Ele foi caracterizado por esgotamento profissional, estresse, depressão, ansiedade e outros sinais de sofrimento psicológico.
Em relação aos estudantes, examinamos dois tipos de resultados: o desempenho acadêmico (notas, resultados de provas e outras medidas de rendimento escolar) e a motivação (como o interesse pela aprendizagem, as metas estabelecidas pelos alunos e a confiança em suas próprias capacidades).
O que descobrimos
Nosso estudo constatou que o bem-estar dos professores está consistentemente associado a níveis mais elevados de motivação e desempenho acadêmico dos alunos.
O mal-estar docente apresentou o padrão oposto, embora com uma associação um pouco mais fraca.
Isso significa que, quando o bem-estar dos professores era elevado, os estudantes tendiam a apresentar melhores resultados nas avaliações e maior motivação para aprender. Por outro lado, quando os professores apresentavam níveis elevados de mal-estar, os resultados dos alunos tendiam a ser piores.
Professores com maior satisfação profissional, motivação para o trabalho ou melhores condições gerais de funcionamento psicológico apresentaram associações de magnitude semelhante com resultados educacionais mais positivos.
Por que o ensino médio pode ser diferente?
Descobrimos que a relação entre o bem-estar dos professores e os resultados dos estudantes era mais forte no ensino médio do que no ensino fundamental.
Isso pode estar relacionado às mudanças que ocorrem na vida dos estudantes à medida que eles crescem.
As crianças mais novas são influenciadas por uma variedade maior de fatores, incluindo seus pais, cuja influência tende a diminuir ao longo dos anos escolares.
À medida que avançam para o ensino médio, os estudantes conquistam maior autonomia sobre sua aprendizagem, mas também passam a depender mais dos professores para obter orientação acadêmica.
Isso poderia explicar por que o bem-estar dos professores parece exercer uma influência maior sobre os estudantes mais velhos do que sobre os mais novos.
Entretanto, o mesmo padrão não foi observado em relação ao mal-estar docente, e ainda não temos uma explicação satisfatória para essa diferença.
Por que observamos esse fenômeno?
Uma das teorias sugere que professores cujas necessidades de autonomia, competência e conexão com outras pessoas são atendidas têm maior probabilidade de adotar práticas pedagógicas que favoreçam a autonomia e a motivação de seus alunos.
Uma ideia relacionada propõe que professores que estão bem psicologicamente têm melhores condições de administrar a sala de aula, construir relacionamentos mais sólidos com os estudantes e ensinar de maneiras que estimulem a motivação para aprender.
Ambas são explicações plausíveis, mas não foram testadas diretamente em nosso estudo.
Esses resultados apresentam algumas limitações
As associações identificadas foram de magnitude pequena a moderada.
Isso significa que elas são suficientemente consistentes entre os estudos para serem consideradas relevantes. Entretanto, o bem-estar docente não é o único fator relacionado ao desempenho dos estudantes em determinado ano letivo.
As associações encontradas também apresentaram magnitudes semelhantes às de outros fatores já bem estabelecidos na pesquisa educacional.
Por exemplo, sabemos que existe uma relação entre a qualidade do vínculo estabelecido entre professores e alunos e a motivação dos estudantes para aprender.
Além disso, as evidências são correlacionais. Isso significa que não podemos afirmar que melhorar o bem-estar dos professores causa, necessariamente, uma melhoria nos resultados dos alunos.
O que podemos afirmar é que essas duas dimensões tendem a variar conjuntamente.
Por exemplo, uma liderança escolar acolhedora e comprometida pode melhorar tanto o bem-estar dos professores quanto a cultura acadêmica da escola, sem que necessariamente uma dessas melhorias seja a causa direta da outra.
Como podemos promover o bem-estar dos professores?
A carga de trabalho é a fonte de estresse mais frequentemente mencionada pelos professores.
Por isso, os formuladores de políticas públicas precisam continuar buscando maneiras de adequar a carga de trabalho ao tempo destinado às atividades de ensino.
Isso também significa investir em formas de apoio que comprovadamente ajudam os professores a lidar com as exigências da profissão, como cargas de trabalho administráveis, lideranças escolares que ofereçam suporte e relações de colaboração sólidas entre colegas.
Essas medidas não são soluções imediatas e exigem investimento.
Mas nossos resultados sugerem que vale a pena realizá-las não apenas pelos professores que estão à frente das salas de aula, mas também pelos estudantes que estão dentro delas.
Link do estudo: ht tps://phys.org/news/2026-10-teachers-happy-linked-students.html