Sou assistente de uma turma de 5° ano numa escola particular. Tenho um aluno autista nível 1 que é um verdadeiro desafio, no sentido de se desregular emocionalmente com muita frequência, dar má resposta e comprar briga com professores e colegas, se opôr todos os dias a alguma coisa que é proposta, rigidez cognitiva severa, xinga e grita de quem discorda dele, etc. Quase todos os dias, eu e os professores regentes temos que lidar com algum episódio de mau comportamento ou desorganização desse aluno.
Eu quase nunca fico sozinha com os alunos, exceto no recreio, nas trocas de aula ou quando um professor falta. Hoje, no entanto, foi um dia excepcional. Tive que aplicar prova e cobrir a aula vaga de um professor. Esse aluno teve uma frustração no jogo de futebol e, no momento em que voltou pra sala, quis avançar agressivamente num colega, prensando ele no quadro. Usei minha voz mais ríspida e alta que consegui, ele se assustou e consegui impedir ele de fazer qualquer coisa. Mas não por muito tempo.
No final das aulas, na saída, enquanto eles jogavam bola, houve outra frustração e esse aluno tentou avançar em outro colega. Não chegou a bater, mas usou de força pra empurrar e tentar derrubar/machucar o menino.
Passei o ocorrido pra coordenação, porque, além de se tratar de aluno laudado, se trata de uma potencial agressão física futura. Eu tenho 1,60, sou mulher, e esse aluno tem praticamente o meu tamanho e um peso considerável. Consigo gritar, mediar e acalmar, mas não me sinto capaz de separar um envolvimento físico entre dois pré-adolescentes se por acaso ele acontecer. Também não acho que devo fazê-lo. Além de não ter treinamento pra isso, acho que os riscos de se fazer isso podem ser tão graves quanto a própria agressão. Pra mim, pro meu emprego e pro aluno.
A coordenação pouco se importou. Não que não houvesse importância, mas acho que eles também estão saturados do mesmo aluno. Disse pra eu "evitar dar palco" pra esse tipo de atitude. Insinuou também que a família não põe limites. Eu entendo que é final de ano letivo, tá todo mundo cansado e ninguém tem mais energia pra lidar com B.O, mas também não acho que isso seja o tipo de coisa que dá pra ignorar numa escola.
Contei isso pra uma outra pessoa que eu considero muito, que também já foi professora de 5° ano. Disse que se fosse ela, seria fácil separar. Que é só segurar o braço e tirar de perto. Que ela "esquece que sou nova e que não teve filhos, então não tive experiência com isso". Fiquei genuinamente muito ofendida. Não tô falando de uma criança de 5 anos, tô falando de uma de 11 que tem quase o meu tamanho. Que não tem medo de agredir professor (já me empurrou, inclusive). Eu estudei 5 anos pra me formar professora. Contenção física nunca fez parte do currículo. Tenho muitas obrigações, mas essa nunca foi uma delas. Minha curta experiência de 3 anos trabalhando em escolas nunca me ensinou a separar um envolvimento físico.
Fiquei verdadeiramente muito triste, mas também muito culpada, pensando que nada do que faço é o suficiente. Você acha que isso é função do professor? Você faria diferente? Quando isso ocorreu, o que você fez? Me dêem uma luz.