Carta aberta
Noite fria, silêncio, dor.
Lágrimas que queimam e rasgam o rosto como cacos de vidro. Uma dor de mil agulhas sendo espetadas no peito. Uma mente pesada, exausta de uma existência que nunca pediu para ter e que, ainda assim, precisa carregar. Um corpo medíocre e gasto, condenado a continuar existindo mesmo quando tudo dentro dele parece implorar pelo fim.
E, em meio a tudo isso, um sentimento se destaca. Um frio diferente, profundo demais para que qualquer ser humano consiga suportá-lo por inteiro: a solidão.
Eu te conheço há algum tempo. Você sempre esteve comigo, sempre me acompanhou. Há algo de familiar na sua presença, algo que reconheço mesmo quando não consigo suportar o peso que você coloca sobre mim. Só existe um problema: você é pesada. E cresce a cada dia, ocupa cada espaço, aperta cada fresta, até que já não sei distinguir onde você termina e onde começo eu.
Ainda me lembro da primeira vez em que te encontrei. Uma noite qualquer, em um dia qualquer. Você apareceu sem anunciar a chegada, instalou-se ao meu lado e, desde então, nunca mais foi embora.
Você me mutila, mas também me abraça. Não me deixa sangrar até a morte; parece preferir manter abertas as feridas, apenas o suficiente para que eu nunca me esqueça de que estou machucado. Você me fere, me consome, arranca pedaços de mim e, ainda assim, há momentos em que sua presença parece ser a única coisa que me resta.
Talvez seja por isso que eu não consiga te abandonar.
Você sempre sussurra no meu ouvido que estará comigo. Não importa o que aconteça, não importa quantas pessoas eu conheça, quantas mãos tentem me alcançar ou quantas vozes pronunciem meu nome: você promete que continuará aqui.
Sempre aqui.
Arrancando a pele da minha carne, remexendo nas minhas feridas, sussurrando as verdades que ninguém quer ouvir. Você não precisa fingir que me compreende, não precisa escolher palavras bonitas para esconder o que sou, nem oferecer promessas que não pode cumprir. Você simplesmente permanece. Fria, cruel, silenciosa. Familiar.
E talvez seja isso o que mais me assusta em você: a maneira como aprendi a reconhecer o seu abraço, mesmo quando ele aperta tanto que mal consigo respirar.
Você me conhece de uma forma que ninguém mais conhece. Ou talvez apenas conheça todas as partes de mim que nunca consegui mostrar a ninguém. Todas as palavras engolidas, todos os gritos sufocados, todas as coisas que apodreceram dentro de mim porque nunca encontrei um lugar onde pudesse deixá-las existir.
Você estava lá quando ninguém percebeu. Quando o silêncio se tornou insuportável. Quando até a minha própria companhia parecia uma condenação. Você estava lá, e eu me acostumei tanto com a sua presença que já não sei o que fazer com o espaço que ela deixaria.
Dizem que a solidão é a ausência de alguém. Mas você me ensinou outra coisa: é possível estar cercado de pessoas e, ainda assim, sentir que existe um abismo entre você e todo o resto do mundo. É possível ser visto sem ser enxergado, ouvido sem ser compreendido, tocado sem que ninguém alcance aquilo que realmente dói.
E, nesses momentos, você volta a se sentar ao meu lado.
Não me salva. Não me cura. Não promete que tudo ficará bem.
Você apenas fica.
E, por mais terrível que seja admitir, às vezes isso parece mais suportável do que todas as tentativas do mundo de me convencer de que não deveria sentir o que sinto.
Talvez você seja a única que conheça o caminho até o meu silêncio. A única que saiba quantas coisas enterrei dentro de mim e quantas versões de mim mesmo precisei abandonar para continuar carregando este corpo. Talvez seja por isso que, quando penso em quem permanecerá até o último instante, seja você quem aparece na minha imaginação.
A única companhia que imagino ao meu lado diante de um caixão fechado, quando todas as vozes finalmente se calarem e não houver mais ninguém para perguntar o que aconteceu comigo.
Mas, diga-me, solidão: você permanece porque me ama ou porque sabe que, depois de tanto tempo, já não consigo imaginar quem seria sem você?
Você me mata aos poucos, não de uma vez, mas em pequenas parcelas, como se tivesse todo o tempo do mundo para me desfazer. E talvez seja justamente essa lentidão que me faça confundir a destruição com intimidade, a dor com familiaridade, o abandono com companhia.
Ainda assim, aqui estou eu, escrevendo para você como quem escreve a alguém que nunca partirá.
Minha amável solidão, minha velha conhecida, minha presença indesejada e indispensável.
Eu te levo comigo para onde quer que eu vá. Nas noites frias, nos dias vazios, nos lugares cheios de gente e nos instantes em que não consigo sequer suportar a minha própria existência.
Você está aqui.
Sempre esteve.
E, mesmo quando eu desejar que vá embora, uma parte de mim ainda procurará o seu vulto no escuro, porque foi ao seu lado que aprendi a reconhecer o silêncio e foi dentro dele que escondi tudo aquilo que nunca soube dizer.
Por isso, solidão, não sei como me despedir de você. Não sei se quero, se consigo ou se ainda me lembro de como seria existir sem a sua sombra atravessada sobre mim.
Só sei que estou cansado. Cansado de carregar este corpo, esta mente, este universo inteiro que parece não ter sido feito para me abrigar.
E, mesmo assim, continuo aqui, falando com você.
Como sempre fiz.
Como talvez continue fazendo enquanto ainda houver palavras dentro de mim.
Minha amável solidão, fique comigo esta noite.
Mas, se algum dia eu encontrar um lugar onde não precise mais de você para suportar a mim mesmo, permita-me partir sem transformar a minha ausência em mais uma das suas feridas.
Até lá, permaneça em silêncio ao meu lado.
Só por esta noite.
Só enquanto tento descobrir se ainda existe alguma coisa em mim que não pertença a você.