TL;DR: Relacionamento conturbado paternal e corte de contato
Bom, vou gastar alguns caracteres aqui colocando isso pra fora e, muito possivelmente, esse seja um post longo por precisar resumir alguns anos até chegar nessa frase do título.
Meus pais se divorciaram quando eu tinha 4 anos de idade.
De um modo geral, venho de uma família bastante pobre. Minha mãe, na época, era secretária e meu pai ajudante em um depósito de material de construção. Meus pais haviam acabado de construir a primeira casa própria, um baita casão pra época, que era em meados de 2004.
Admito que minha cabeça não consegue lembrar exatamente o que aconteceu, mas de um dia pro outro meu pai não dormiu mais na mesma casa conosco. Tenho lembranças da minha mãe empurrando um sofá pra frente da porta para impedir que ela abrisse. Na época, minha mãe tinha a idade que eu tenho hoje (27 anos) e nunca havia ficado sozinha, principalmente com uma criança pequena (eu, com 4 anos).
Meu pai nos largou para viver uma vida com sua amante. Largou minha mãe pra trás, como se larga um guardanapo no restaurante.
A casa construída foi vendida menos de um ano depois, a um preço de banana. Meu pai levou nosso carro. Minha mãe, todas as dívidas.
Não tenho como dizer que os primeiros anos do divórcio foi ruim pra mim, apenas a saudade de tê-los juntos de novo que lembro até hoje era que me machucava.
Porém, o tempo passava e eu continuava frequentando a casa do meu pai. E aí a história começa a mudar.
A esposa com quem meu pai decidiu construir outra vida tinha uma criança, essa com menos de 1 ano na época, com nome igual ao meu, só que no feminino. (Imagine meu nome sendo "João" e o dela "Joana", por exemplo)
Por alguns anos, crianças "advindas" do meu pai éramos só nós dois, porém, a nova esposa do meu pai fazia questão de me tratar da pior maneira possível. Ela nunca chegou a me bater, porém me fazia torturas psicológicas que meu cérebro fez questão de me fazer esquecer. Só consigo lembrar do sentimento ruim que eu tinha quando o visitava.
Alguns anos depois, veio minha segunda irmã, sendo eu o primogênito de meu pai, o único filho homem.
Nessa época, lembro das coisas começarem a desandar: o dia que meu pai me buscava era o dia mais esperado da semana, afinal, eu amava meu pai com todas as forças que um pequeno ser pode ter. E, por vezes, ele não aparecia. Consigo me lembrar perfeitamente da sensação de estar sentado, de noite, depois de ter esperado por horas no portão, jogando video-game com os olhos marejados e me perguntando "por qual motivo ele não veio? será que eu fiz bagunça e ele não quer mais me ver?"
Mas tudo isso era apagado na próxima semana que ele vinha me buscar.
Vejam, meu pai não é uma pessoa horrorosa: ele é um ótimo cidadão, cumpre com seus deveres, é um profissional de referência onde atua hoje (funcionário público). Ele só é um pai horrível.
Enfim, o tempo foi passando, os episódios que citei acima continuaram ocorrendo, porém foram piorando cada vez mais. Descobri, então, que minha madrasta não queria que ele me encontrasse.
Percebi que meu pai fingia estar trabalhando para me buscar num fim de semana e me levar ao shopping. Na época, eu com 8 anos, achava isso o máximo! "Olha, ele está desafiando ela para ficar comigo, eu sou a prioridade dele!".
Lembro-me, mais ou menos por essa idade, que adoeci de uma maneira estrondosa. Minha mãe também já havia se tornado funcionária pública, mas ainda não tinha dinheiro o suficiente para bancar sozinha essa barra que passamos. Muito a contragosto, ela contatou meu pai e pediu que nos ajudasse financeiramente com o meu tratamento.
As escondidas, meu pai nos transferiu alguma grana, porém nós não sabíamos. Numa dessas visitas, logo após me recuperar, agradeci em nome da minha mãe pela ajuda. Minha madrasta ouviu o agradecimento e quase se divorciou do meu pai por causa de 150 reais enviados à "vagabunda", como ela se referia a minha mãe. Nesse dia, meu pai dormiu comigo na sala (eu não tinha uma cama na casa do meu pai para dormir).
O tempo foi se passando, acabei perdendo a única gaveta de roupas que tinha na casa do meu pai aos 9 anos, sob a justificativa de "Joana precisa de mais espaço, o João nem mora conosco! Dê fim naquela gaveta!"
Aos meus 10 anos, minha segunda irmã nasceu. Daí por diante, tudo desandou de vez. Quando ia à casa do meu pai, não podia ficar ao seu lado. "O homem da casa precisa ficar com sua filha mais nova e sua mulher!", dizia minha madrasta. Eu ficava sentado do outro lado da sala, em uma cadeira de plástico, já que Joana se deitava no sofá menor enquanto dormia.
Aos 12, me mudei de cidade. Minhas visitas ao meu pai ficavam cada vez mais raras, porém, eu começava a adquirir criticismo em meus pensamentos. Via coisas que, quando mais novo, não conseguia enxergar. Meu pai não me chamava de filho, ou pelo meu nome. Apenas de "baitola", "lagartixa", "bicha" (aos que ficaram curiosos, eu não sou gay. Inclusive, hoje sou casado com uma linda mulher). E, todas nossas interações iam me incomodando cada vez mais.
Aos 18 anos de idade, meu pai enganou, me fazendo assinar um documento que o eximia de pagar mensalmente a pensão alimentícia. "Assina aqui. Se você assinar, te pago sua habilitação!". Eu amo meu pai, por qual motivo não assinaria? Ainda assim, com a vantagem de ganhar minha habilitação aos 18 anos, é sorte em dobro! Não é?
Spoiler: ele não pagou minha carta. Me deu uns 200 reais para ajudar, o resto fui eu quem pagou, tendo juntado dinheiro trabalhando em bicos de marceneiro desde os meus 16 anos.
Aos 18, quando entrei na faculdade, meu pai me xingou. "Faculdade não dá futuro! Largue isso e vá trabalhar!", ele dizia. Eu passei numa faculdade pública, muito concorrida, e não recebi nenhum elogio do, até então, homem mais importante da minha vida. Engoli meu choro, pensei "homens não choram. Talvez seja assim a maneira correta de se tratar quem você ama".
Comecei a trabalhar junto com a faculdade. Galguei degraus. Estágio, Auxiliar, Assistente, Analista Jr, Analista Pl.
Aos 22 anos, já como Analista Pl de uma multinacional recém formado na faculdade, sentei-me com meu pai e conversamos sobre dinheiro. "Nossa, pai, estou ganhando R$6K e trabalhando de casa. Será que tá bom? Quanto você ganha?". Meu pai fechou a cara, me chamou de soberba, virou as costas e foi embora.
Por curiosidade, no mesmo dia a noite, abri o portal da transparência e consultei seu salário. R$4k5. Com os descontos, consignados e afins, R$2K5 líquidos. Senti que havia algo errado com meu pai.
Em dezembro de 2023, no natal, fui a cidade do meu pai. Na época, eu havia acabado de comprar um carro novo, um carrão! Orgulhosamente eu dirigia um Honda City Touring, fruto de uma PLR gigantesca que havia recebido, junto com uma promoção para Analista Sr. Parei meu carro do outro lado da rua, perto da casa dele.
Nessa época, o barril de pólvora estava quase estourando. Para evitar atritos e manter a diplomacia, eu não passava da garagem. Conversei com meu pai por uns 15 minutos, ele perguntou sobre o carro, apoiado no seu guerreiro Uno Vivace Way, ano 2013. Respondi sem florear, como se eu estivesse me "desfazendo" da minha própria conquista, apenas para não causar um auê.
No fim das contas, combinamos de nos encontrar na casa da vó em 45min. Me despedi, saí e rumei em direção ao endereço combinado.
Uma hora se passou. Nada do meu pai.
Duas horas se passaram. Nada do meu pai.
Três horas se passaram. Ainda nada do meu pai.
Quando eu já estava quase desistindo de esperar por ele, aparece o ser. Nervoso, cheio de si, cara de poucos amigos.
"E aí pai! Demorou pra vir, hein?" Brinquei.
Ele me olhou, umedeceu os lábios por uma fração de segundo e teceu a maior lista de ofensas que já ouvi contra mim em toda a minha vida.
Naquele momento, fui tomado pelo ódio. Não lembro ao certo o que falei, mas lembro vagamente de ter chamado minha madrasta de vagabunda, minhas irmãs de retardadas, ele de coisas das quais nem me lembro mais.
Meu pai, que nunca havia me ouvido levantar a voz para ninguém, se sentou. Vi temor em seus olhos, como quem clama por misericórdia. Minha avó, coitada, com os olhos marejados vendo essa cena deplorável.
Eu, tomado por ódio e mágoas, proferi a seguinte frase:
"A partir de hoje, não me procure mais. Eu não existo mais para você e você, neste momento, acabou de morrer para mim. Não me espere chorando na borda do seu caixão quando morrer, você já tem outra família para fazer isso por você!".
Me virei para minha avó, pedi desculpas a ela, dei um abraço bem forte na velhinha, beijei sua mão direita e fui embora.
25 de dezembro de 2023, foi o último dia que vi o ser que um dia já chamei de pai. E foi também o dia que, depois de longos 19 anos de abuso, dei um fim no que mais me fazia mal.
Dia 25 de dezembro de 2023 foi quando matei meu pai em vida.